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Treinamento, desempenho e formação do goleiro atual

Atualizado: Mai 29

Créditos: http://www.universidadedofutebol.com.br

Escrito por: Rodrigo Vicenzi Casarin.

Colaborações: Luis Henrique e Vinícius Ziegler Bandeira.

Goleiro, uma posição particular e diferente do restante das outras posições. Uma posição com estética, arte singular e com lendas cimentadas em cima de sua atuação. Uma posição que historicamente, desde as brincadeiras de rua, até propriamente os treinos organizados em realidades desprivilegiadas, credenciava os jogadores com menos habilidades com os pés a defender a baliza, obrigando-os a exercitar suas capacidades motoras sem instrução exclusiva. Muitos goleiros surgiram assim. Esse espírito ainda existe hoje, mas muito pouco, pois as exigências são outras.

Hoje há muitas alternativas, oportunidades e os jogadores iniciam sua vida precoce como goleiros em idades iniciais, por demonstrarem certas aptidões e também por optarem. Muitos com 4,5 anos já possuem ídolos, se espelham, e vivem por anos nessa posição.

A grande questão do tema entra em como operacionalizar essa relação, a formação e o treinamento, primeiramente do iniciante, ao crescimento processual, até chegar ao profissional, e a manutenção por longos anos. Será apenas individualizando os trabalhos? Relacionando com outros aspectos? Entendendo as demandas do jogo? Enquadrando o treinamento dentro da organização coletiva?

Em qualquer nível, até pouco tempo atrás, o futebol parecia 1 + 10 jogadores e não 11 jogadores interagindo que originavam uma organização coletiva. A equipe consistia em 10 jogadores e o goleiro fazia parte de outro cenário isolado por conta das características peculiares de sua posição.


Esse aspecto ao longo dos anos foi evoluindo e ganhando novos traços, tanto na interação do goleiro com a equipe no desenvolvimento da forma de jogar, na construção de treinos mais específicos para a posição por mais contraditório que pareça, na evolução do entendimento bioenergético posicional, na busca pela melhora do uso dos pés para facilitar o jogo ofensivo, e no timing de cobertura defensiva para jogar também com os pés, especialmente para as equipes que jogam com defesa alta.


Nesse contexto, o treinador de goleiro, começou entender que além da atuação funcional-específica da posição, que nunca deve ser negligenciada, pois o goleiro antes de qualquer questão deve defender a baliza, também todas as relações possíveis mais direcionadas do goleiro com os outros jogadores nos 5 momentos do jogo são de vital importância para o planejamento semanal dos exercícios. Isso exige aprofundamento diário.

Nada melhor que solicitar a opinião com dois treinadores de goleiros para clarificar esse panorama:


O treinador de goleiros da equipe profissional do Desportivo Brasil, Luis Henrique de Moraes, ex Estoril/Praia de Portugal e Corinthians/SP, aborda com propriedade o papel do goleiro, seu treinamento e sua forma de pensar o processo:


“Nos últimos tempos o goleiro vem ganhando importância dentro do modelo de jogo, principalmente no aspecto ofensivo. Atualmente as defesas jogam em linha alta, proporcionando um espaço maior entre o goleiro e a última linha defensiva. É responsabilidade do goleiro posicionar-se para antecipar o ataque e especialmente ao contra-ataque adversário, ou ter o domínio do espaço posicional ofensivo, fazendo a circulação da bola com qualidade, gerando ações ofensivas pontuais em busca do gol adversário, variando as superfícies de passe. Por exigência do futebol moderno é necessário saber jogar com os pés, e jogar bem com os pés, porém não podemos esquecer que a essência do goleiro é defensiva, e sua responsabilidade maior é a proteção da sua baliza.


Também penso muito que a exigência física é grande, principalmente nas sessões de treinamentos, onde ações intensas e de curta duração formam o alicerce da construção de um goleiro de alto nível. Para treinar e se preparar em alta intensidade, é importante a estruturação física do atleta durante o período de sua formação. Durante esse período, as etapas de desenvolvimento neuromotor terão que ser respeitadas impecavelmente. Então, num processo formativo, as informações e orientações alinhadas aos estímulos físicos não poderão se chocar nas transições entre as categorias.”


Divido em 3 vertentes minha rotina de trabalho:

1- Geral

2- Especial

3- Específica

Geral: Estruturação física (Ganho de massa magra e recrutamento de força) e trabalhos de profilaxia (preventivos).

Especial: Ações orientadas (fundamentos técnicos, estímulos de potência, velocidade de reação e agilidade).

Específica: Ações orientadas pelo treinador principal (aspectos técnicos e táticos). Inserção do goleiro no modelo de jogo.


“Dessa forma, na construção de um padrão semanal de trabalho, embaso meus treinamentos em cima dessas ideias acima, tendo em conta o período competitivo do processo, mas especialmente a análise do jogo passado e a construção semanal dos trabalhos do treinador principal”. 


O treinador de goleiros da equipe Sub 15 da Chapecoense, Vinícius Ziegler Bandeira, ex – Novo Horizonte de Santa Maria/RS e Riograndense Futebol Clube/RS, também com propriedade, opina sobre a demanda do goleiro atual, e traz uma estruturação semanal do seu trabalho voltada para uma divisão sistemática de conteúdos:


“Penso que o goleiro deve estar em total sintonia com o modelo de jogo da equipe. Acredito e tento trabalhar dessa maneira, mesmo sabendo das particularidades que ainda a cultura do futebol proporciona, para que o goleiro não seja uma peça isolada no contexto do jogo. Por isso trabalho para que o goleiro seja o mais equilibrado e consistente possível, sem “pontos fortes e fracos”, por mais que cada um tenha sua particularidade e suas características. O goleiro tem que ser o mais completo possível, para suprir todas as necessidades que envolvem o jogo e se adaptar às diferentes estruturas de jogo, formas de jogar e os instantes do jogo, como por exemplo, saber fazer cobertura jogando em linha alta ou ter uma reposição rápida para transições ofensivas. Consequentemente, o preparador de goleiros deve estar inserido no planejamento e estruturação diária de todos os treinamentos da equipe junto da comissão técnica. Penso que no planejamento semanal dos goleiros deve estar incluído 4 partes fundamentais: jogos com os pés, trabalhos técnicos específicos da posição, trabalho com conteúdo voltado para o que será trabalhado com a equipe (cobertura, manutenção da posse de bola, confronto 1×1, etc) e o trabalho com a equipe.


Assim, especificamente para a categoria Sub 15, divido um cronograma semanal visando o jogo de sábado:


Segunda-Feira:

Trabalho 1: Passes rasteiros

Trabalho 2: Chutes frontais e diagonais

Trabalho 3: De acordo com o conteúdo que irá trabalhar com a equipe*

Trabalho 4: Trabalho com a equipe

Terça-Feira:

Trabalho 1: Passes rasteiros com mudança de direção

Chutes frontais e diagonais

Trabalho 2: Chutes frontais e diagonais

Trabalho 3: De acordo com o conteúdo que irá trabalhar com a equipe*

Trabalho 4: Trabalho com a equipe

Quarta-Feira:

Trabalho 1: Passes rasteiros com criação de linha de passe (circulação de bola)

Trabalho 2: Confronto 1×1

Trabalho 3: De acordo com o conteúdo que irá trabalhar com a equipe*

Trabalho 4: Trabalho com a equipe

Quinta-Feira:

Trabalho 1: Circulação de bola com saída de pressão

Trabalho 2: Bola aérea

Trabalho 3: De acordo com o conteúdo que irá trabalhar com a equipe*

Trabalho 4: Trabalho com a equipe

Sexta-Feira:

Trabalho 1: Reposição de bola

Trabalho 2: Bola aérea

Trabalho 3: De acordo com o conteúdo que irá trabalhar com a equipe*

Trabalho 4: Trabalho com a equipe


Ficou nítido que a ideia do goleiro ser o primeiro atacante e o último defensor está cada vez mais em voga. Também que as informações e conteúdos de treinamento vêm mudando. Claro que sua especialização posicional não pode ser negligenciada, porém, de uma forma intensa e curta, evitando excessivas repetições muitas vezes sem contexto a sua verdadeira atuação. Além disso, a relação constante com o modelo de jogo também ficou clara.

Mais que isso, as novas demandas não tiram a magia eterna da posição ingrata após sofrer um gol defensável e da posição milagrosa que faz todos acreditarem que até o último instante existe sempre a possibilidade de fazer algo que salve a situação.


Que os goleiros sejam cada vez mais completos, melhores jogadores, bons líderes, bons passadores, mas que não percam sua essência defensiva.

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