• Rogger da Costa

ROBERTO RIBEIRO, O GOLEIRO QUE DEFENDEU SAMBAS INCRÍVEIS

Em 1961 o goleiro Pneu deixou o Goytacáz de Campos (RJ) apar fazer sucesso no Rio de Janeiro, quiça no Brasil. O período de testes no Fluminense não correu como o esperado, mas o jovem Demerval Miranda Maciel tirou o grená do uniforme, mudou de posição e sagrou-se como um verdadeiro ídolo brasileiro, campeão não dos gramados mas da Avenida. Assim começou a escalada de Roberto Ribeiro que nesta segunda-feira (20) completaria 80 anos. A voz que fez o Brasil cantar belos sambas se calou em 1996 com sua morte precoce aos 55 anos em função das sequelas de um atropelamento.


O intérprete de sucessos como “Todo Menino é um Rei” (Nélson Rufino e Zé Luiz), “Liberdade” (Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho), “Vazio” (Nélson Rufino) e “Estrela de Madureira” (Acyr Pimentel), entre outros sucessos, nasceu numa família humilde de Campos. Aos 9 anos, já dava duro em pequenos serviços para ajudar nas despesas da casa. O futebol, por que não, poderia ser o caminho para tirar a família do sufoco e o garoto foi mudando de clubes na cidade natal, até chegar ao Goytacáz, por onde disputou competições de base da Liga Metropolitana da Campos. Mas não é que goleiro cantava bem? Amante do carnaval, era presença constante me rodas de samba e nos desfiles dos bloco Amigos da Farra, que ajudou a fundar. Os colegas de time viam em Pneu o dom para cantar. Reza a lenda que próprio técnico Hélvio Santafé foi um dos primeiros a aconselhá-lo a seguir carreira artística.


Após o malsucedido teste no Tricolor carioca, teve outro teste que garrou com firmeza. Depois de cantar na capital num programa da Rádio Mauá, conheceu Liette, com quem viria a se casar. E coube à namorada levar Demerval a uma escola de samba pela primeira vez. E justamente a verde-e-branco de Madureira que, anos antes, desfilara em Campos.


Uma vez na Serrinha, sempre na Serrinha. Roberto Ribeiro nunca mais saiu de lá. Tornou-se intérprete dos temas carnavalescos do Império Serrano de 1971 a 1982. Defendeu os sambas de grandes desfiles da escola como os enredos de Carmem Miranda (1972), Estrela de Madureira (1975), Lenda das Sereias (1976). Em “Bum bum Paticumbum Prugurundum” (1982), o último título conquistado pela tradicional agremiação, Roberto Ribeiro fez sue carnaval de despedida e não cantou o samba na Avenida, passando o bastão para Quinzinho.


Ao lado de Jamelão, da Mangueira, Roberto foi um dos poucos intérpretes de escolas de samba a fazer sucesso com suas carreiras solo no “meio do ano”, expressão usada no meio do samba para os períodos fora do carnaval. Curiosamente, como lembra o jornalista e pesquisador Fred Soares, Nem Roberto nem Jamelão participavam das gravações dos álbuns oficiais dos desfiles pois não eram autorizados pelos selos com os quais tinham contrato. “Para ouvir Roberto Ribeiro ou jamelão cantar os sambas de suas escolas era preciso estar nos ensaios da quadra ou na Avenida”, comenta Fred.


O ciúme da gravadora fazia sentido, pois Roberto Ribeiro tornou-se um dos campeões de vendas no fim da década de 1970. Deixou uma obra respeitável: 20 álbuns, o primeiro deles com Elza Soares. Gravou depois com Clara Nunes, Alcione, Gonzaguinha e Chico Buarque. Também compositor, gravou 21 sambas de sua autoria, a maioria composta em parceria com Toninho Nascimento. Seu último álbum foi em 1992. Uma coletânea lançada três anos depois resgatou seus sucessos.


A cegueira causada pelo diabetes já afligia o cantor havia alguns anos. Na noite de 2 de janeiro de 1996, ele foi atropelado perto de casa, no Largo do Anil, em Jacarepaguá. O motorista que o atingiu não prestou socorro. Após uma semana em coma, Roberto Ribeiro encerrou seu espetáculo, deixando um vazio na música brasileira. O legado, no entanto, permanece. Um memorial em sua homenagem foi construído no Império Serrano. E o Goytacaz segue se orgulhando de ter tido em seus planteis o menino Pneu, um dos tantos campistas que saíram do interior para vencer no Rio de Janeiro, mas de uma forma ainda mais intensa do que se desenhava.



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