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  • valdirbardi

PSICOLOGIA PARA TREINADORES E SEUS GOLEIROS


A psicologia do esporte desempenha um papel fundamental no desenvolvimento e desempenho dos goleiros, uma posição única e desafiadora no futebol.

Em primeiro lugar, o aspecto mental é crucial para a concentração e foco constantes exigidos pelos goleiros. Manter a atenção durante longos períodos e lidar com a pressão de impedir gols requer resiliência e habilidades psicológicas sólidas. 


Além disso, a confiança é um elemento-chave na psicologia do goleiro. A capacidade de se recuperar após sofrer um gol, aprender com os erros e manter a autoconfiança são aspectos essenciais.


Treinadores de psicologia esportiva muitas vezes trabalham com goleiros para desenvolver estratégias de enfrentamento e visualização positiva, reforçando a confiança em suas habilidades. 

A comunicação eficaz também é um componente vital. Os goleiros atuam como líderes da defesa, exigindo habilidades de comunicação claras e assertivas para orientar a equipe durante o jogo.


A psicologia do esporte para goleiros abrange, assim, uma ampla gama de aspectos, desde o controle emocional até a construção de confiança e liderança, todos essenciais para o sucesso nesta posição especializada.

 

Além da concentração, confiança e comunicação, a gestão do estresse é um elemento crucial na psicologia do esporte para goleiros. Esses atletas frequentemente enfrentam momentos de alta pressão, como penalidades ou situações críticas de jogo.


A habilidade de controlar a ansiedade e manter o equilíbrio emocional é fundamental para tomar decisões rápidas e precisas, garantindo um desempenho consistente, mesmo sob condições estressantes. 

A resiliência mental também desempenha um papel central na psicologia do goleiro. A capacidade de lidar com adversidades, superar erros e manter o foco no próximo desafio são características que distinguem os goleiros de alto nível.


Treinadores de psicologia esportiva muitas vezes trabalham para fortalecer a resiliência emocional, ajudando os goleiros a aprender com as dificuldades e a enfrentar os desafios com uma mentalidade positiva. 

Por fim, a autoavaliação contínua é uma prática valiosa. Goleiros que se envolvem em uma reflexão consciente sobre seu desempenho, identificando pontos fortes e áreas de melhoria, estão mais propensos a um desenvolvimento constante. A psicologia do esporte para goleiros promove essa autenticidade no autoconhecimento, incentivando a busca constante pela excelência e aprimoramento de habilidades psicológicas essenciais para o sucesso na posição. 


As novas tecnologias têm desempenhado um papel crescente no trabalho psicológico com goleiros, proporcionando ferramentas inovadoras para aprimorar o desempenho mental e emocional desses atletas. Uma das áreas em que a tecnologia tem sido particularmente eficaz é na utilização de aplicativos e plataformas online para oferecer programas de treinamento mental personalizados. Essas ferramentas permitem que os goleiros acessem exercícios de mindfulness, visualização e controle de estresse de maneira conveniente, promovendo práticas consistentes e adaptadas às suas necessidades específicas. 

 

Outra aplicação importante é a análise de dados e desempenho. As tecnologias de rastreamento e monitoramento permitem que os treinadores identifiquem padrões comportamentais e emoções durante os jogos, fornecendo insights valiosos sobre o estado mental dos goleiros. Essas análises podem orientar estratégias personalizadas de treinamento psicológico, ajudando os atletas a aprimorar suas habilidades mentais com base em dados objetivos. 

 

A realidade virtual (RV) também surge como uma ferramenta inovadora na psicologia do esporte para goleiros. A RV permite simulações imersivas de situações de jogo e de alta pressão, oferecendo uma abordagem prática para treinar a resiliência, a tomada de decisões sob estresse e o controle emocional. Essa tecnologia proporciona uma experiência mais próxima da realidade do campo, preparando os goleiros para enfrentar desafios específicos de maneira virtual antes de confrontá-los no campo. 

 

Em resumo, as novas tecnologias têm transformado a abordagem do trabalho psicológico com goleiros, oferecendo soluções mais acessíveis, personalizadas e baseadas em dados. Ao integrar essas inovações, os profissionais de psicologia esportiva podem potencializar o desenvolvimento mental dos goleiros, contribuindo para o aprimoramento de suas habilidades emocionais e mentais em um campo altamente desafiador. 

 

Doutor João, para começarmos, gostaria que dissesse para nossos leitores, como goleiros de base, e seus treinadores devem cuidar do seu psicológico em dias onde a vitória parece estar acima de tudo, e os valores de aprendizado parecem estar ficando para trás?

 

Em dias de competição intensa, é fundamental que goleiros de base e seus treinadores cuidem do aspecto psicológico para garantir um equilíbrio saudável entre a busca pela vitória e os valores de aprendizado.

Algumas diretrizes podem facilitar esse processo, tais como a ênfase no processo e não apenas no resultado. Incentivar os goleiros a concentrarem-se no desempenho e no processo em vez de fixarem-se exclusivamente no resultado final ajuda a aliviar a pressão excessiva associada à busca pela vitória a qualquer custo. 

É também crucial a realização de um estabelecimento de metas realistas, definindo metas realistas e alcançáveis, tanto para o time quanto para cada goleiro individualmente, pode contribuir para uma mentalidade mais equilibrada. O foco deve estar no desenvolvimento contínuo e na aprendizagem, não apenas nas vitórias. 

Os profissionais que atuam com os goleiros devem ministrar a comunicação aberta, onde os goleiros se sintam à vontade para expressar suas preocupações e emoções, é essencial. Treinadores devem estar disponíveis para ouvir e oferecer apoio quando necessário. 

Sempre se lembrar de enfatizar os valores do esporte, recordando aos atletas e treinadores os valores fundamentais do esporte, como trabalho em equipe, respeito, disciplina e superação de desafios, contribui para um ambiente mais saudável e resiliente. 

Outro ponto fundamental é o de aprender com as derrotas, incentivando a mentalidade de aprendizado com as derrotas. Cada jogo, seja uma vitória ou derrota, oferece oportunidades de crescimento e desenvolvimento. Analisar o desempenho e identificar áreas de melhoria é fundamental. 

O desenvolvimento da resiliência também auxilia os goleiros no desenvolvimento e fortalecimento emocional, por meio de técnicas como respiração, visualização positiva e estratégias para manter o foco no momento presente. 

Celebrar pequenos sucessos, reconhecer e celebrar não apenas as grandes vitórias, mas também os pequenos sucessos e melhorias individuais contribui para construir confiança e motivação. 

Por fim, enfatizo que o apoio dos pais e responsáveis é fundamental na promoção de uma atitude positiva em relação ao esporte. Eles podem desempenhar um papel crucial no apoio emocional e na manutenção de uma perspectiva equilibrada. 

Ao criar um ambiente que valoriza o desenvolvimento pessoal e coletivo, além do resultado, é possível formar atletas mais equilibrados e resilientes diante das demandas do esporte. 


Identifiquei que meu atleta, que era comunicativo e positivo, já não interage e anda bastante negativo no dia a dia, como deveria ser a minha abordagem com o atleta?

 

 Quando você percebe mudanças significativas no comportamento de um atleta, especialmente de um estado comunicativo e positivo para uma postura mais reservada e negativa, é crucial abordar a situação com sensibilidade e empatia. Aqui estão algumas sugestões para a sua abordagem: 

 

Escolha um momento apropriado e um local privado para conversar com o atleta. Isso permite que ele se sinta mais à vontade para compartilhar suas preocupações. A partir disso, começar uma conversa demonstrando sua preocupação genuína pelo bem-estar do atleta. Use uma linguagem amigável e aberta para criar um ambiente propício à expressão de sentimentos. 

Além disso, recomendo que ouça atentamente o que o atleta tem a dizer. Mostre empatia em relação às suas preocupações e demonstre compreensão. Evite fazer julgamentos precipitados. 

De forma delicada, pergunte sobre as mudanças de comportamento que você observou. Evite acusações diretas, em vez disso, busque compreender as razões por trás das alterações. A sensação de abertura e confiança é fundamental nesse processo. Nesse momento, questione se há problemas pessoais ou questões no ambiente da equipe que possam estar afetando o atleta. Às vezes, questões fora do campo podem influenciar significativamente o estado emocional de um jogador. 

Se necessário, sugira a possibilidade de buscar apoio profissional, como um psicólogo esportivo ou um conselheiro, para ajudar o atleta a lidar com questões emocionais mais profundas., fazendo com que o atleta compreenda que o bem-estar mental é tão vital quanto o físico. Reforce a ideia de que você está ali para apoiá-lo não apenas como um jogador, mas como uma pessoa completa. 

Na mesma direção e juntos,  desenvolvam um plano de ação para abordar as preocupações levantadas. Isso pode envolver ajustes nas práticas, apoio adicional da equipe ou outras medidas para melhorar o ambiente. Para isso, encorajar o atleta a manter uma comunicação aberta no futuro. Deixe claro que você está disponível para discutir qualquer problema que ele possa enfrentar, e que sua preocupação com o bem-estar dele vai além do desempenho no campo. 

Caso a situação  não melhorar e as preocupações persistirem, considere envolver outros profissionais, como um psicólogo esportivo, para fornecer suporte adicional. 

Lembrando sempre que cada atleta é único, e a abordagem precisa ser adaptada às necessidades individuais. O objetivo é criar um ambiente de suporte que promova tanto o desenvolvimento esportivo quanto o bem-estar pessoal do atleta. 

 

Existem métodos para uma boa preparação mental pré-jogo?  Se sim, pode falar um pouco a respeito?

 

Sim, a preparação mental pré-jogo é uma parte crucial do desempenho esportivo. Alguns métodos que podem ser úteis para garantir uma boa preparação mental antes de uma competição passam pelo exercício da Visualização Positiva, que é a ação de encorajar os atletas a visualizarem o sucesso. Eles podem imaginar-se executando movimentos perfeitos, tomando decisões acertadas e alcançando objetivos durante o jogo. A visualização positiva ajuda a construir confiança e a reduzir a ansiedade. 

Além disso, é importante definir metas claras e específicas para o jogo pode ajudar a manter o foco. Essas metas podem incluir metas individuais, estratégias de equipe ou objetivos relacionados ao desempenho. 

Desenvolver um ritual pré-jogo também pode ajudar os atletas a entrar em um estado mental adequado para a competição. Isso pode incluir rotinas de aquecimento, alongamento, músicas específicas ou momentos de reflexão. 

A prática de técnicas de respiração profunda e relaxamento pode ajudar a reduzir a ansiedade e a manter a calma. A respiração profunda, por exemplo, é uma maneira eficaz de acalmar os nervos e focar a mente. 

É fundamental que os atletas se fortaleçam emocionalmente através de afirmações positivas que reforcem a confiança e uma mentalidade vencedora. Repetir essas afirmações antes do jogo pode influenciar positivamente a autoestima e o desempenho. 

Igualmente importante é o “foco no processo”.  Em vez de se concentrar apenas no resultado final, os atletas podem se beneficiar ao se concentrarem no processo e nas tarefas específicas em que precisam se destacar. Isso ajuda a manter a mente mais focada e menos preocupada com resultados externos. 

Manter a energia positiva e evitar pensamentos negativos e manter uma atitude positiva é vital para esse processo. Os atletas devem estar cientes de pensamentos autocríticos e substituí-los por pensamentos construtivos. 

No plano da concentração e do foco, frisa-se a importância de se desenvolver técnicas de concentração, como focalizar a atenção em um aspecto específico do jogo, pode ajudar os atletas a manterem o foco durante a competição. 

Outro tema que deve ser desenvolvido é a “adaptação à pressão”. Simular situações de pressão durante treinos pode ajudar os atletas a se adaptarem ao estresse competitivo. Quanto mais familiarizados estiverem com a pressão, mais preparados estarão para lidar com ela durante os jogos. 

Por fim, recomendo sempre que se ensine aos atletas a focarem no que podem controlar e aceitar o que está fora de seu controle. Isso ajuda a reduzir a ansiedade relacionada a fatores externos. 

A chave é personalizar a preparação mental de acordo com as preferências e necessidades individuais de cada atleta. A prática consistente dessas técnicas pode contribuir significativamente para o desempenho mental e emocional positivo pré-jogo. 

 

Qual o problema na sociedade e principalmente nas micro-sociedades(clubes), onde se criou um estereótipo de que falar dos medos e das nossas precipitações como seres humanos é um sinal de fraqueza?

 

O estigma associado à expressão de vulnerabilidades e emoções nas sociedades e, por extensão, nas microssociedades, como clubes esportivos, pode ser atribuído a diversos fatores culturais, sociais e históricos. Aqui estão alguns pontos-chave que contribuem para esse problema: 

 

Em muitas culturas, especialmente no contexto esportivo, existe uma pressão para aderir a padrões de masculinidade tóxica, onde demonstrar emoções, vulnerabilidades ou medos é considerado sinal de fraqueza. Isso pode criar um ambiente onde os indivíduos hesitam em expressar suas preocupações. 

Ambientes competitivos, como clubes esportivos, muitas vezes valorizam o desempenho acima de tudo. A preocupação excessiva com resultados pode levar os indivíduos a esconderem suas inseguranças, temendo que isso afete sua imagem ou posição na equipe. 

 

A falta de educação e conscientização sobre saúde mental também pode contribuir para a estigmatização. Quando as pessoas não compreendem a importância de abordar as emoções e os desafios mentais, podem ser menos propensas a aceitar e apoiar aqueles que buscam ajuda. 

Outro ponto é a  ênfase exagerada na resiliência, muitas vezes interpretada como a capacidade de suportar pressões sem demonstrar fraqueza, pode criar um ambiente onde os indivíduos sentem que precisam ser fortes o tempo todo, dificultando a expressão de suas vulnerabilidades. 

Vale frisar que a história de estigmatização em relação à saúde mental contribui para a perpetuação de atitudes negativas. No passado, questões emocionais eram frequentemente estigmatizadas, o que pode ter criado uma cultura de silêncio em torno desses temas. 

A liderança desempenha um papel crucial na definição da cultura de uma organização ou clube. Se líderes não demonstram abertura para discutir questões emocionais e promover um ambiente de apoio, isso pode se refletir nas atitudes dos membros da organização. 

Superar esse estigma requer uma mudança cultural significativa, com a promoção de ambientes onde a expressão de emoções e a busca de apoio são encorajadas e vistas como sinais de força, não de fraqueza. Educação sobre saúde mental, liderança consciente e a promoção de uma cultura de compreensão e empatia são passos essenciais para criar microssociedades mais saudáveis e inclusivas. 

 

 Quais dicas para estarmos em vigilância, com nossa mente(treinadores) e de nossos atletas?

Treinadores: 

A primeira dica é a de manter uma compreensão clara de suas próprias emoções, limitações e padrões de pensamento. O autoconhecimento é essencial para identificar sinais de estresse ou desconforto mental.  

Em seguida, incorporar práticas de mindfulness, como meditação ou respiração consciente, em sua rotina diária. Isso pode ajudar a manter a calma, aprimorar o foco e reduzir o estresse. 

Lembre-se de reservar momentos regulares para reflexão. Avalie como você está se sentindo, identifique áreas de preocupação e planeje estratégias para lidar com o estresse. 

Defina limites claros entre trabalho e vida pessoal, garantindo tempo para descanso e atividades revitalizantes. 

Cultive a disposição para compartilhar seus sentimentos e desafios com colegas, amigos ou mentores. A comunicação aberta facilita a busca de apoio quando necessário. 

Para Atletas: 

Esteja atento aos comportamentos e expressões emocionais dos atletas. Alterações significativas podem indicar estresse ou desafios emocionais. 

Mantenha diálogos individuais regulares com os atletas para compreender seus sentimentos, tanto em termos de desempenho esportivo quanto emocionalmente. 

Fomente uma cultura onde os atletas se sintam à vontade para compartilhar preocupações sem receio de julgamento. A abertura sobre questões mentais é incentivada. 

Forneça informações sobre a importância da saúde mental, seja por meio de palestras, workshops ou materiais informativos, aumentando a conscientização. 

Disponibilize recursos sobre profissionais especializados, como psicólogos esportivos, que os atletas possam procurar conforme necessário. 

Destaque a importância do descanso e da recuperação mental, equilibrando o treinamento físico. Reconheça a relevância do equilíbrio entre esforço e descanso. 

Ofereça feedback construtivo e positivo, celebrando conquistas e progressos, ao mesmo tempo que orienta gentilmente para melhorias. 

Mantenha um acompanhamento contínuo do estado mental dos atletas, reconhecendo mudanças e respondendo de acordo. 

A vigilância mental deve ser um esforço compassivo e não invasivo, demonstrando uma preocupação autêntica pelo bem-estar global de cada indivíduo. A abertura, a empatia e o cuidado mútuo são fundamentais para criar ambientes saudáveis, tanto para você quanto para seus atletas. 

 

Sobre DR JOAO COZAC:

Dr João Ricardo Cozac, psicólogo do esporte, presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e do Exercício. Pós Doutor em ciências do Esporte pela Universidade de São Paulo.  Atua na área há 32 anos. Autor de 7 livros sobre a Psicologia Esportiva. Membro acadêmico e pesquisador pelo Laboratório de Psicossociologia do Esporte da USP. Atuou em grandes times de futebol no Brasil e fora do país. Professor responsável pelo curso de formação em Psicologia do esporte na Associação Paulista da Psicologia do Esporte com mais de 5 mil alunos formados. 

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1 Comment


pedroaugustoff255
Jan 03

Eu queria ser mulher profissional

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