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  • Rogger da Costa

O 'TAPA PENALES', O 'DEVORADOR DE MENTES', O 'PORTEIRO DO CÉU'

Um BRILHANTE texto originalmente publicado no TRIVELA


Um lance basta para mudar o desfecho de uma partida. Um lance basta para que se conte outra história ao final de uma Copa do Mundo. E numa decisão enlouquecedora como a de 2022, em que se sentia o desgaste do sofá, apenas de se assistir o que acontecia em campo, imagine a pressão de se jogar – qualquer mínimo lance poderia ser transformador. Principalmente um lance que aconteceu no 123° minuto, com os acréscimos do segundo tempo da prorrogação prestes a estourar, na mais cristalina de todas as chances de gol. Randal Kolo Muani teve a bola que qualquer jogador profissional gostaria, que qualquer menino sonha. E ele fez o certo, num chute forte que tentou tirar do goleiro. A bola da vida de Emiliano Martínez, numa defesa do tamanho do mundo, do tamanho de uma Copa do Mundo. O desfecho do jogo não mudaria naquele lance à favor da França. Permaneceu palpável à Argentina. Permaneceu ao alcance das mãos de Dibu, exatamente nos pênaltis, onde ele mais sente prazer. Onde ele se sentiu à vontade o suficiente para entrar na mente dos franceses e, finalmente, fazer a Albiceleste tricampeã.


A história da Argentina em Copas do Mundo, durante as últimas décadas, não era necessariamente de grandes goleiros. Ubaldo Fillol provavelmente foi a última unanimidade na meta, consagrado em 1978, antes que Nery Pumpido o suplantasse como campeão em 1986. Já depois disso, os heróis no gol argentino tinham mais de folclore do que necessariamente de confiabilidade. Sergio Goycochea virou um mito por “tapar os penales” que pavimentaram o caminho até a final em 1990. Sergio Romero, outro arqueiro limitado, encarnou o mesmo espírito rumo à decisão em 2014. Porém, está mais do que claro, um bom goleiro ganha campeonatos. E foi isso que Dibu Martínez provou à Argentina desde os seus primeiros momentos pela seleção.



A carência crônica da seleção argentina em sua meta viu as perspectivas se transformarem num estalo, a partir de junho de 2021. Martínez era um goleiro promissor reconhecido há tempos, desde que trocou o Independiente ainda na adolescência para se juntar às categorias de base do Arsenal. Precisou rodar por seis intermináveis empréstimos até finalmente ter sua sequência como titular dos Gunners, quando os 27 anos já o distanciavam de ser uma promessa. Foi o momento não apenas de ganhar sequência nas convocações, depois de chamados esparsos pela seleção adulta desde 2011, bem como de ganhar mais chances como titular. Primeiro no Aston Villa, para onde se transferiu e se confirmou como um dos melhores arqueiros em atividade na Premier League. Depois na Albiceleste, que descobriu seu novo camisa 1 (vestindo a 23) em plena Copa América.


Se a transfiguração da Argentina como uma verdadeira campeã começa no Brasil, naquele torneio em 2021, foi também porque a Albiceleste enfim percebeu que tinha goleiro. Emiliano Martínez foi excepcional na competição, em especial na semifinal contra a Colômbia. Ali, os argentinos entendiam que tinham novamente um “tapa penales”, pela maneira como o paredão barrou três cobranças dos colombianos e atormentou a tranquilidade de cada adversário que ia para a marca da cal. Mas, cada vez mais, Dibu também provava que era mais do que o folclore do arqueiro pegador de pênaltis. Virou imprescindível ao sucesso do time de Lionel Scaloni.


A Argentina passou a jogar mais solta depois da conquista da Copa América porque ganhou confiança. E a confiança também passava por um goleiro que não deixava o time tão vulnerável. Quando necessário, Dibu Martínez estaria lá. Continuou assim durante as Eliminatórias, durante a preparação ao Mundial. Não continuou, entretanto, na estreia contra a Arábia Saudita. Os dois gols da virada surpreendente dos Falcões Verdes não foram falhas do camisa 23, mas ele sabia que poderia ter feito melhor. Duvidou de si. E por isso foi tão importante recorrer aos serviços da psicóloga da delegação. O goleiro reconheceu publicamente isso, depois de já ter admitido antes que o acompanhamento psicológico ao longo dos últimos anos o tornou melhor. Por mais que ele seja o jogador que inferniza a mente dos adversários, também precisa de apoio. Encontrou esse apoio durante o Mundial e se encontrou na sequência do torneio.


O trabalho de Emi Martínez seria mínimo na sequência do Grupo C. México e Polônia pouco fizeram para ameaçar o goleiro. Ele realmente começou a se agigantar no Mundial a partir das oitavas de final, contra a Austrália. Pareceu um ensaio à final, com uma defesa monumental nos acréscimos do segundo tempo, para defender o chute à queima-roupa de Garang Kuol e evitar o empate dos adversários. A classificação veio ali. Como viria em suas defesas contra a Holanda. Não no tempo normal, em que não defendeu os dois únicos chutes certos dos laranjas, ambos fatais. Mas os pênaltis são a sua casa. A mansão que aluga na mente dos cobradores, como fez diante de Virgil van Dijk e Steven Berghuis logo nos dois primeiros tiros holandeses. O caminho se abria. Já contra a Croácia, as únicas defesas, seguras, foram para evitar qualquer chance de reação.


A decisão da Copa do Mundo provavelmente exigiria bem mais de Emiliano Martínez, não só pelo peso da ocasião, mas pelo poder de fogo do adversário. Até por isso, surpreendeu como ele se manteve ileso durante mais de 80 minutos. Não precisou fazer defesa qualquer. Sua concentração, todavia, seria bastante testada. Sua própria fortaleza mental. E os primeiros testes a Dibu poderiam fazê-lo vacilar. A primeira finalização no alvo dos franceses foi o pênalti batido por Mbappé, nas redes. A segunda, logo depois, rendeu o segundo gol. As duas bolas triscaram os dedos do camisa 23, que não conseguiu defender. Mas, dessa vez, ele estava mais preparado para as interrogações dentro da cabeça. Ainda mais, os companheiros puderam contar com ele.


A Argentina ficava no limite. E foram algumas bolas que rondaram perigosamente a área de Emi Martínez. O goleiro realizou uma defesa tranquila numa batida de Adrien Rabiot nos acréscimos do segundo tempo, mas o enredo da partida em si levava à taquicardia. Quando de novo precisou enfrentar Mbappé num pênalti durante a prorrogação, Dibu mudou de lado no pulo e de novo perdeu o duelo. O atacante era quem parecia disposto a aterrorizar o goleiro.



Um lance, contudo, basta para mudar o desfecho de uma partida. Basta para que se conte outra história. E bastou para Emiliano Martínez deixar o lado vencido, três vezes, para se impor no lado vencedor. Se os argentinos confiam em seu arqueiro, é por instantes como aquele, no 18° minuto do segundo tempo da prorrogação. Kolo Muani estava sozinho. A bola caiu na medida para sua batida com o pé direito. A defesa errou o corte, o que o deixava desimpedido. E o atacante fez o certo, fez o simples, numa chapuletada sem deixar a bola nem quicar. Procurou o caminho mais rápido e também mais curto para a linha do gol. Não contava com o pé salvador de Dibu, no maior de seus milagres. O arqueiro foi perfeito ao fechar o ângulo e reagir com agilidade. A bola que evitou a virada, que deixou a Argentina mais viva rumo aos pênaltis. Que disse ao goleiro que essa era a sua noite, de uma vez por todas. Ali, foi o porteiro que barrou a entrada dos franceses nos celestes céus – logo albicelestes.


Nos pênaltis, os argentinos nem se preocupavam. Hugo Lloris pode ser um grande goleiro, recordista, capitão. Não é um demônio da marca da cal como Dibu. Mbappé o venceria pela terceira vez nos 11 metros, de novo por centímetros, mesmo ao escolher o canto certo. Dos outros, Martínez tratou de devorar o cérebro. Pegou a cobrança de Kingsley Coman, e então tudo desabou. Aurélien Tchouaméni já viu o gol muito menor, o goleiro muito maior. Sequer acertou o alvo. Teria dancinha do argentino para provocar. O título parecia resolvido desde já. E se Kolo Muani agora encheu o pé no meio para fazer, do outro lado a Argentina batia com calma, com perfeição. Sabia que seu bicho-papão tinha tornado a noite dos Bleus em pesadelo.


A Luva de Ouro da Copa do Mundo está em ótimas mãos com Emi Martínez. Dominik Livakovic e Bono fizeram Copas estupendas, mas Dibu conseguiu ser tão incrível quanto eles nos pênaltis e ainda mais impressionante em duas partidas de mata-matas. O camisa 23 entra não só para o folclore da Albiceleste, mas também para a memória mais gloriosa. Foi o tapa penales que também se apresentou como um goleiro técnico e extremamente decisivo nos momentos de maior provação. Sua defesa contra Kolo Muani, sem dúvidas, está entre as maiores das Copas do Mundo – candidata inclusive como talvez a maior de uma final.


E não são só os argentinos da seleção que sabem como podem contar com Emi Martínez. Não surpreenderá se, nas casas ao redor do país, as crianças com medo do escuro receberem um retrato do goleiro para colocar sob as suas camas. Dibu estará pronto para entrar na mente e intimidar qualquer monstro, inclusive aquele que afastou os albicelestes do topo do mundo por 36 anos.


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