• Voa Goleiro

O Futebol Feminino é atrapalhado pelo machismo que está dentro da gestão do esporte no Brasil?

Ano, 2017!

E você aí achando que uma medalha de ouro no Mundial ou Olimpíada vai, de uma hora para outra, mudar a situação da modalidade e acabar com toda a violência simbólica, preconceito, machismo e falta de diretos básicos às mulheres que escolhem o futsal ou futebol feminino como prática esportiva, modo de vida e profissão.

O problema nunca foi a falta de títulos, afinal o futsal e o futebol de campo feminino tem numerosos pódios conquistados, ouros, pratas, bronze e ainda os títulos de melhor jogadora do mundo. Nada disso, até hoje, foi capaz de mudar a realidade da modalidade e não vai ser uma nova conquista que mudará!

Ao que a história mostra, contada pelas bocas de pioneiras ou de mulheres que se atreveram a enfrentar a construção social de que mulher não joga bola, o problema sempre foi uma administração que NUNCA VALORIZOU e NUNCA BUSCOU desenvolver o futebol ou futsal feminino de modo a torná-lo um produto assim como foi feito com o esporte masculino.

Diga-se de passagem que a história é contada da boca das mulheres que jogaram, jogam, sofreram e sofrem com os preconceitos e pré-conceitos porque nem a nossa mídia nem quem administra o esporte teve, ao longo dos anos e até hoje, a capacidade e o respeito de registrar de forma adequada a história delas que está (ou deveria) estar entrelaçada com a história de um futebol nacional vitorioso e que deveria ser para todos, mas não é!

Olhando para o passado do futebol masculino, ele foi da marginalização e descrença ao mais amado e lucrativo esporte do país. Agora me diga: Se conseguimos transformar de tal forma “o futebol deles”, por quê não transformamos também o futebol delas e transformamos tudo isso simplesmente em O NOSSO FUTEBOL?

Ao que parece, o problema nunca foi o trabalho que dá transformar o futebol feminino em nova fonte de dinheiro pra quem gerencia e pra quem joga e sim a incapacidade de ver as mulheres de forma igualitária quando se diz respeito a praticar o esporte e poder viver dele. Na verdade é um problema de construção social que afeta a mulher em todas as áreas de atuação da nossa sociedade que cria e tenta dizer o que a mulher pode ou não ser e fazer.

Pode ter o mesmo talento, mas ainda não são respeitadas e valorizadas!


Não podemos de forma alguma isentar clubes, profissionais e atletas de culpa quando não existe união para brigar pela modalidade e também quando, em alguns casos e situações, vemos a contentamento com pouco e a felicidade e contentamento em mostrar um nível técnico fraco e ainda sim ter a capacidade de bater no peito e gritar “e sou foda” com um futebol tão abaixo do que essa modalidade pode apresentar.

Mas essa omissão pode,talvez ser entendida e ocorra pelo fato de que as construções sociais, esse papo de que mulher não pode jogar, que nunca vai ser isso ou aquilo, que nasceu pra cuidar de casa e da família, esteja dentro das próprias atletas de forma inconsciente. A dificuldade que a sociedade e o mundo da bola impõe na trajetória dessas meninas, que começa dentro de casa e vai passando pelo bairro, cidade, a escola, a igreja e na sociedade,se arrastando e repetindo Brasil à fora e martela, machuca e marca essas meninas desde muito cedo.

Talvez as marcas sejam responsáveis pelo medo delas de brigar e cobrar por mais! Ontem essas meninas não tinham nada e hoje elas já tem um pouco (que é quase nada) que veio em um caminho tão difícil que existe um medo de perder esse pouco “conquistado”. Talvez por isso, muitos clubes, treinadores, federações e a gestora nacional de modalidade sejam tão acomodados também porque se aproveitam desse medo. Sabem que para elas é difícil lutar exatamente por esse medo e lembrança de todo sofrimento que tiveram e ainda tem mesmo jogando no que (infelizmente) hoje podemos chamar de futebol feminino profissional e que de profissional tem muito pouco. Antes ela jogava de graça. Hoje ela joga por 300 reais e um prato de comida!

Algumas coisas vem mudando mas ainda é extremamente pouco. É melhor do que nada? Sim, mas não podemos nos contentar com migalhas.

Precisamos, queremos e MERECEMOS MUITO MAIS. Não queremos nada além do que nos é de direito! É difícil ao menos ter real respeito?

Os salários nunca serão iguais os do masculino (e nem é isso que elas desejam), mas a estrutura pode ser melhor, os salários mais dignos, o respeito e as oportunidades podem e devem existir, tanto pra quem está começando, quanto para quem já está inserida no esporte e tenta sobreviver de algo que não lhe dá nada concreto na grande maioria dos casos.

Elas não querem ser o “novo futebol masculino” ou “novo futsal masculino”. Elas querem ser o futebol feminino. Organizado, com um plano nacional de desenvolvimento de longo prazo, competições, clínicas, cobrança das federações estaduais por parte da confederação, com planos de marketing, com carteira assinada e INSS.

Elas não querem ser Pelé, Neymar ou Falcão. Também não querem ser “a nova Marta” ou “a nova Vanessinha”! Elas querem ser Terezas, Joanas, Alines e Marias. Não são novas ninguém! São apenas elas mesmas e esperam oportunidade de poder mostrar seu talento, aprimorá-lo e viver do esporte que amam e escolheram para viver. Querem jogar por 20 anos e saber que quando pararem terão 20 anos de carteira assinada e fundo de garantia!

Precisamos de ações reais, constantes e efetivas das Confederações nacionais. Precisamos de cobrança e fiscalização das federações estaduais> Precisamos desenvolver parcerias, patrocínios específicos, programas, propagandas em TV/redes sociais, e clínicas em todo o país que tenham como objetivo quebrar a estigma de que futebol é coisa de homem e começar a mudar a imagem que a sociedade cria de como deve ser uma mulher e do que ela deve, pode ou não fazer. ELAS PODEM TUDO QUE ELAS QUISEREM!

Não somos nem seremos o país do futebol até que aqui O FUTEBOL SEJA PARA TODOS!

Os responsáveis pela gestão do esporte ainda não se importam com o Futebol das mulheres e isso que pode soar até como uma “falta de inteligência” ou “falta de visão” de entidades e pessoas que poderiam tranquilamente ganhar dinheiro com o futebol das mulheres (e digo ganhar bem sem precisar desviar verbas e embolsar investimentos), porém é a maior prova de que, nesse mundo do futebol nacional onde marajás e coronéis que estão há décadas à frente do futebol nacional ou estadual,  sedentos por dinheiro e pelo poder e prazer de mandar e desmandar, o problema não é fazer algo e sim não querer ver as mulheres figurando como estrelas do futebol, jogando até melhor que muitos homens e gerando comparações de alguns muitos “pernas de pau” de salários astronômicos.

2017, e você aí achando que violência contra a mulher dentro do esporte, machismo e toda construção social não existe e não as afeta?! O problema existe e é um dos fatores que dificultam o desenvolvimento do esporte feminino.

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