• Rogger da Costa

MOHAMMED AL-DEAYEA: O FENÔMENO DA ARÁBIA SAUDITA

Excelente artigo originalmente postado em TRIVELA.COM.BR


Nascido em um bairro popular localizado na província de Tabuk (cidade que fica ao noroeste da Arábia Saudita), Mohamed Abdullaziz Al-Deayea tornou-se um mito graças ao desempenho exibido durante duas décadas de serviços prestados ao futebol.


O que poucos sabem é que o goleiro, detentor do recorde de convocações por seleções nacionais com 181 aparências e conhecido em seu país como “O Fenômeno da Terra”, por pouco não aderiu a outra modalidade. Se não fossem as coincidências do destino, o futebol de seleções fatalmente não conheceria uma de suas maiores lendas.


O INÍCIO PROMISSOR

Em sua infância, Deayea insistia em driblar um caminho que já parecia traçado. Ainda menino ele costumava disputar peladas com seus amigos jogando sempre como atacante, mesmo sendo irmão de Abdullah Al-Deayea (goleiro do selecionado saudita nos títulos asiáticos de 84 e 88, que ganhou o apelido de “Sentinela”). Aos oito anos ingressou no clube de sua cidade, o Al-Ta'ee, mas buscando fugir das comparações com Abdullah, escolheu competir em outro esporte, o handebol. Porém, graças a sua altura e habilidade com os pés, ironicamente acabou escalado como guarda-metas da equipe. As boas atuações logo chamaram a atenção e com 13 anos, Mohamed já ocupava papel de destaque no time. Mas em 1987, um fato curioso mudaria definitivamente sua vida.


Naquela temporada, a equipe de futebol juvenil do Al- Ta'ee perdeu seu goleiro titular devido a uma lesão e sabendo do parentesco famoso de Al-Deayea, o treinador responsável decidiu observar o arqueiro do time de handebol. Mal sabia ele que a maior credencial do garoto até então, seria na verdade motivo para a resistência em aceitar a transição de modalidade. Entretanto, devido a pressão pela urgência em se encontrar um substituto, Mohamed acabou topando o desafio na expectativa de ajudar seu clube. E o resultado não poderia ser melhor. Com uma exibição de gala, o goleiro obteve grande destaque logo em sua estréia, chamando a atenção dos torcedores devido aos reflexos apurados e intervenções com os pés. As atuações ganharam inclusive elogios do irmão mais velho, que incentivou Deayea a trocar de esporte definitivamente.


Dali em diante, a ascensão do garoto foi meteórica. Dois anos depois ele já integrava o elenco principal do Al- Ta'ee, sendo convocado pelo brasileiro Ivo Wortmann para seleção sub-16 que disputou o mundial da categoria na Escócia. Após empates por 2×2 com Portugal e Guiné, além de um suado triunfo pela contagem mínima frente aos colombianos, os sauditas ficaram com a 2ª colocação da chave e aos poucos foram surpreendendo seus adversários. Nas quartas-de-final a equipe venceu a Nigéria nos pênaltis e na sequência derrotou o Bahrein (que havia eliminado o Brasil) por 1×0.


Al-Deayea foi decisivo em todas essas partidas, repetindo a dose na final contra os donos da casa. Após saírem perdendo por 2×0, os árabes conseguiram uma surpreendente reação na 2ª etapa, levando a partida para as penalidades, onde conquistariam o histórico título graças a uma defesa do arqueiro na última cobrança escocesa. Consagrado, o goleiro mostrava-se pronto para trilhar um caminho de sucessos.


RENASCIMENTO NO AL-TA'EE E A CONSOLIDAÇÃO NA SELEÇÃO

Conhecido como “Caçador de Adultos”, por endurecer frente aos grandes clubes do país (principalmente quando atua no estádio Prince Abdul Aziz Bin Musa'ed), o Al-Ta'ee é uma espécie de azarão na liga saudita. Fator que contribuiu para que Al-Deayea fosse alçado rapidamente a condição de titular, ao contrário da maioria de seus companheiros na conquista do mundial sub-16, que por sua vez obtiveram pouco destaque em seus respectivos clubes.


A sequência nas seleções de base culminou com as primeiras convocações para o time principal da Arábia Saudita. A estréia foi contra Bangladesh, nos Jogos Asiáticos de 1990, onde o goleiro ainda disputaria mais duas partidas até a derrota para Coréia do Norte nas quartas-de-final. Em ótima fase, Deayea também se mostrava fundamental para permanência do Al-Ta'ee na 1ª divisão liga nacional, mas uma grave contusão no ano seguinte representaria o momento mais complicado na carreira do jogador.


Em tempos onde a medicina esportiva não se mostrava tão avançada como atualmente, uma lesão no ligamento cruzado significava o fim da carreira para muitos atletas. Mas a persistência de Mohamed, que ficou dois anos afastado da seleção, comoveu os torcedores. Durante esse período, tornou-se comum ouvir nos estádios gritos pedindo a benção de Alá para o ídolo. E a volta por cima não poderia ser mais triunfal.


No dia 1º de maio de 1993, Al-Deayea retornava ao gol da Arábia Saudita no jogo contra Macau, que marcava a estréia do time nas eliminatórias para o mundial do ano seguinte. O responsável por esse feito foi brasileiro Candinho, técnico da seleção naquela oportunidade. Titular em todas as partidas do classificatório, o goleiro foi de vital importância para o sucesso daquela campanha, que resultou na primeira aparição da nação em uma Copa do Mundo.


Em gramados americanos, os árabes estrearam contra a poderosa Holanda e surpreenderam ao sair na frente, vendendo cara uma derrota por 2×1. Apesar de realizar boas defesas, Deayea foi responsabilizado por toda imprensa saudita devido a falha aos 42 do 2º que resultou na virada dos europeus. Mas se recuperou bravamente no jogo seguinte, realizando intervenções precisas no clássico contra o Marrocos, onde cumpriu uma promessa feita ao príncipe Faisal bin Fahd, que sempre lhe manifestou apoio.


No último jogo da 1ª fase, contra a Bélgica, o que ficou para história foi o gol de Saeed Al-Owairan, mas não fossem os reflexos apurados de Mohamed, talvez essa história fosse outra. A improvável classificação para às oitavas (em um honroso 2º lugar) empolgou tanto o país que nem mesmo a eliminação frente a Suécia foi capaz de diminuir o ânimo da fanática torcida. Em novembro do mesmo ano, os sauditas confirmaram a boa fase nos Emirados Árabes Unidos conquistando pela 1ª vez em sua história a Copa do Golfo, embora as belas atuações do arqueiro ficassem sempre em segundo plano na imprensa local.


O excelente momento vivido por Deayea na seleção não se refletia em seu clube. Após amargar a lanterna da liga nacional por duas temporadas consecutivas (entre 1992 e 1994), o Al-Ta'ee chegou ao fundo do poço e acabou rebaixado para 2ª divisão. Muitos acreditavam que era chegada a hora do goleiro buscar novos rumos, mas o amor pela equipe contribuiu para que ele permanecesse em Ha'il, mesmo colocando em risco sua visibilidade. De fato, Mohamed foi imprescindível na excelente campanha que culminou com o título da Saudi First Division já na temporada 1994-95.


De volta a elite, o Al-Ta'ee reencarnava sua condição de azarão, apostando todas as fichas em seu guarda-redes. Apresentando sempre a mesma regularidade no clube, Al-Deayea nunca teve sua titularidade na seleção ameaçada, mantendo a camisa 1 em torneios importantes como a Copa Rei Fahd de 1995 (torneio que precedeu a Copa das Confederações) e também a Copa do Golfo de 1996 (onde o país acabou em uma decepcionante 3º colocação).


Na Copa da Ásia do mesmo ano, disputada nos Emirados Árabes Unidos, a equipe continuou oscilante, terminando no 2º lugar de sua chave. Mas demonstrou personalidade ao longo do torneio, conquistando o título após triunfar nos pênaltis na semifinal contra o Irã, repetindo o desempenho na decisão contra os donos da casa. Duelos que remeteram Mohamed à sua primeira conquista com a camisa da Arábia Saudita (o mundial sub-16 de 1989), consagrando o arqueiro novamente como herói nacional.


Retornando ao seu clube, ele continuou fazendo história, desempenhando papel fundamental na surpreendente campanha do Al-Ta'ee na temporada 1996-97 da Copa da Arábia Saudita (Crown Prince Cup). Depois de eliminar figurões como Al-Shabab e Al-Alhi, o “Caçador de Adultos” só foi parado na final pelo Al-Ittihad, mas ainda sim Deayea foi aclamado pela torcida em seu retorno à Ha'il.


Depois de disputar a Copa das Confederações de 1997, o goleiro ajudou seu país a carimbar o passaporte para o mundial do ano seguinte, completando na França mais de 100 partidas pela seleção (então comandada por Carlos Alberto Parreira). Apesar da atuação segura na estréia, Deayea não conseguiu evitar a derrota dos árabes para Dinamarca. No jogo seguinte, uma falha do arqueiro no segundo gol francês contribuiu para a goleada de 4×0, resultando na eliminação precoce dos asiáticos no torneio. A despedida da competição marcou a melhor atuação dos sauditas, que empataram com a África do Sul em 2×2, terminando na lanterna do grupo C.


No mesmo ano veio o título da Copa das Nações Árabes, além da disputa de mais uma Copa do Golfo, onde os Falcões Verdes terminaram na 3º colocação mesmo com Mohamed sendo vazado apenas duas vezes em cinco jogos. Em 1999, a equipe viveu altos e baixos na Copa das Confederações, alternando goleadas como os respectivos 5×0 sofridos diante do México e os 5×1 aplicados no Egito ainda na 1ª fase. Na semifinal contra o Brasil o time foi massacrado por Ronaldinho Gaúcho e companhia, levando uma surra por 8×2, mas ainda sim conseguiu terminar na 4º colocação, seu melhor desempenho na história do torneio. A reputação do goleiro mais uma vez escapava ilesa.


DECLÍNIO NA SELEÇÃO E A AFIRMAÇÃO NO AL-HILAL

Com a sensação do dever cumprido após mais de uma década em Ha'il, Mohamed resolveu deixar o Al-Ta'ee no final da década de 90 buscando alçar vôos mais altos em nível de clubes. Negociado com o gigante Al-Hilal na temporada 1999-00 por 5,5 milhões de riyals (moeda oficial da Arábia Saudita), Deayea reproduzia a trajetória do irmão Abdullah, que também havia jogado pelas mesmas equipes.


Em seu primeiro ano em Riad o goleiro faturou a Copa Nacional e a Copa da Federação (Saudi Federation Cup), além de uma Copa dos Campeões Asiáticos (AFC Champions League) e uma Copa dos Campeões Árabe (Arab Cup Winners' Cup). Coincidência ou não, o Al-Ta'ee também voltou a ser rebaixado logo em sua primeira temporada sem Deayea.


Convocado para a disputa de mais uma Copa da Ásia, o goleiro não decepcionou nos gramados libaneses, ajudando seu país a repetir uma trajetória conhecida. Após um início preocupante, quando estreou goleada por 4×1 pelos japoneses, a Arábia recuperou-se, garantindo a 2ª colocação em seu grupo. E após eliminar rivais tradicionais, como Kuwait e Coréia do Sul, reencontrou os Samurais Azuis na final. Porém, dessa vez o destino não foi favorável ao arqueiro, que assistiu sua seleção ser novamente derrotada pela competente equipe do Japão.


Entre 2001 e 2002, Mohamed voltou a acumular conquistas importantes pelo Al-Hilal, incluindo a liga nacional, a Supercopa Árabe (Arab Super Cup) e a Copa dos Campeões da Ásia (Asian Cup Winners Cup). Certa vez, em um duelo contra o Al-Ittihad, chocou-se de maneira violenta contra um adversário ao sair do gol em uma cobrança de escanteio, permanecendo desacordado no gramado. As atuações destemidas, somadas as diversas conquistas acumuladas em tão pouco tempo, rapidamente colocaram seu nome na galeria de ídolos do clube.


Eleito pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS) como o melhor goleiro asiático do século, ele acabou chamando a atenção do poderoso Manchester United, que buscava se acertar após a saída do ídolo Schmeichel e sofria nas mãos de goleiros como Bosnich, Taibi e Barthez. Segundo a imprensa árabe, o que teria dificultado a negociação seria a dificuldade de Al-Deayea em obter uma permissão de trabalho para atuar na Inglaterra.


Alheio a tudo isso, o arqueiro ajudou o país a garantir sua 3ª participação consecutiva em uma Copa do Mundo, mesmo tendo sua participação nas eliminatórias prejudicada devido as lesões. Porém, antes da Copa de 2002, o “Fenômeno da Terra” faturou mais um título internacional pela Arábia Saudita, conquistando naquele mesmo ano a Copa do Golfo organizada por sua pátria.


No mundial da Coréia e do Japão, Deayea figurava como um dos atletas mais experientes do grupo, distribuindo declarações otimistas antes da estréia contra os alemães. Comandados por um técnico local (Nasser Al-Johar), os Falcões Verdes apresentaram um futebol pífio naquele jogo, sendo massacrados pelas jogadas aéreas que lhe custaram uma derrota por impiedosos 8×0. Extremamente criticado, o goleiro ainda esteve em campo nas derrotas para Camarões e Irlanda, cometendo nova falha diante dos europeus e despedindo-se da competição de forma melancólica.


O cansaço diante da pressão imposta pelos maus resultados aliado a expectativa por uma renovação no envelhecido elenco saudita resultou no afastamento do arqueiro, que durante toda temporada 2003 não disputou nenhuma partida pela seleção. Porém, pelo Al-Hilal, Mohamed continuava soberano, faturando mais uma Copa da Arábia nesse mesmo ano. Em 2004 ele retornou a meta saudita para a disputa de mais uma Copa do Golfo, mas a eliminação precoce ainda na 1ª fase lhe valeram novas críticas por parte da imprensa local.


Habituado a sina de ressurgir das cinzas, o guarda-redes voltou aos seus melhores dias no ano seguinte, quando faturou todos os títulos domésticos disputados por seu clube. A boa forma foi o suficiente para que o técnico Nasser Al Johar, um velho conhecido, o levasse para a disputa dos Jogos Islâmicos, que marcariam a última conquista de Deayea com a camisa da seleção.


Na disputa das eliminatórias para a Copa de 2006, o argentino Gabriel Calderon assumiu o comando da equipe e preferiu apostar no ascendente Mabrouk Zaid como seu arqueiro titular. Classificado para o mundial da Alemanha, o treinador acabou demitido pelos cartolas sauditas após sucumbir nos Jogos do Oeste Asiático, sendo substituído por Marcos Paquetá. Ex-técnico de Deayea no Al-Hilal, o brasileiro bancou a convocação do goleiro, então com 33 anos, para sua 4ª Copa do Mundo. Mas embora mantivesse a camisa 1 e contasse com a idolatria de seus rivais pela posição, Mohamed experimentaria pela primeira vez a reserva na competição.


Mesmo com o clamor popular para que Paquetá premiasse o guarda-redes com um último jogo internacional, o brasileiro se manteve irredutível, escalando Zaid nas três partidas da 1ª fase. E após derrotas para Espanha e Ucrânia, além de um empate com os tunisianos, a Arábia Saudita mais uma vez acabou eliminada na fase de grupos. Ainda sim, a última aparição de Al-Deayea pelos Falcões Verdes (derrota em um amistoso contra Bélgica disputado em maio daquele ano) marcou seu 181º jogo, o que valeu a inclusão de seu nome no Guinness Book como recordista de convocações oficiais por uma seleção nacional. Porém, vale lembrar que pelas contas da FIFA, são “apenas” 177 partidas.


Após abandonar definitivamente o selecionado saudita, o guarda-redes dedicou-se integralmente ao Al-Hilal, mas teve de encarar uma temporada complicada em 2007, quando a equipe amargou um ano sem conquistas. Reafirmando sua sina, Deayea se recuperou em 2008, vencendo a Liga e a Copa nacional. Aos 36 anos, ele parecia decidido a abandonar os gramados em um momento favorável, mas a devoção dos adeptos e um pedido pessoal de Salman bin Abdulaziz, governador da província de Riad e torcedor declarado do Al-Hilal, o fizeram mudar de idéia.


Fechando sua brilhante carreira, Mohamed ainda seria peça fundamental no Al-Hilal por mais duas temporadas, quando ajudou o time a consolidar o tricampeonato da Copa da Arábia Saudita faturando as edições de 2009 e 2010. Seus fãs ainda acreditavam que ele poderia ser útil na disputa de mais uma Copa do Mundo e o “Fenômeno da Terra” parecia esperar por essa chance. Mas o fato é que o país sequer conseguiu uma vaga no mundial da África do Sul, ficando de fora da disputa após 16 anos. Cumprindo uma promessa pessoal, Deayea acabou não renovando com seu clube para temporada 2010-11, deixando os gramados para entrar definitivamente para a história do futebol mundial!

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