• Rogger da Costa

IRENE GONZÁLEZ - A HISTÓRIA DA PRIMEIRA GOLEIRA

Atualizado: Jun 26

Espanha, anos 1920. A torcida chega ao campo para acompanhar um jogo de futebol. Como o costume da época, os espectadores são homens de terno e chapéu acompanhados por meninos de bermuda e meia alta. Enquanto chegam, o goleiro se apoia em uma trave, de braços cruzados, um olhar seguro e olhos fixados nas lentes dos fotógrafos que também acompanham o match.


O jogo ou a torcida com certeza ficarão em segundo plano dessas fotografias. Nada será sobre a tecnologia da época ou quaisquer outros fatores do jogo. Nos jornais do dia seguinte, após uma rápida olhada e depois outra, desta vez mais demorada, para conferir se o que viu era aquilo mesmo, os leitores se espantaram. Afinal de contas, o goleiro da foto não estava de bermuda e sim de saias.

Esta é a única fotografia conhecida da pioneira do futebol feminino espanhol, aos 15 anos de idade. Antes de qualquer outra grande jogadora espanhola ou do mundo aparecer, muito antes de qualquer uma delas, havia apenas uma mulher no "jogo dos homens": Irene González.


Irene nasceu em La Coruña, em 26 de março de 1909, sete anos após o futebol ter sido introduzido na cidade por um estudante vindo da Inglaterra e apenas três anos após a criação do Deportivo La Coruña, o principal time da cidade. Ela cresceu no bairro de Orillamar, no norte da cidade, onde começou a jogar, apesar do protesto dos garotos.


Em 1924, aos 15 anos, começaram a surgir relatos de uma garota, conhecida simplesmente como Irene, que se destacava participando de partidas pela cidade, em "A Estrada", "Monelos" e "Riazor", onde o Deportivo mais tarde construiria seu estádio.


No início de sua carreira, na equipe infantil Racing-Athletic, Irene jogou como zagueira, mas, por razões desconhecidas, foi indo cada vez mais para trás, até se tornar Goleira e foi aí que tudo começou. Suas performances corajosas e confiantes rapidamente atraiam multidões.


Os anos 1920 foram um período de crescimento significativo do futebol na Espanha. A década começou com a seleção conquistando a medalha de prata nas Olimpíadas de 1920, na Antuérpia, e terminou a com criação da liga nacional de futebol. Nesse clima de crescente interesse pelo esporte, a singularidade de uma mulher jogando entre os homens se mostrou um atrativo muito popular. Porém, a família de Irene era completamente descontente com suas participações. Há relatos de seu pai a arrastando, chutando e gritando para tirá-la do campo.


No final de 1924, frustrada com a desorganização de algumas equipes em que jogou e com total consciência de que sua popularidade garantiria público e renda suficientes, Irene formou seu próprio clube: Irene FC. A equipe jogou amistosos, torneios na cidade e realizou excursões por toda a província. Os lucros eram distribuídos entre a equipe, mas a atração principal sempre foi, sem dúvidas, Irene. Sua participação nos jogos era um pré-requisito para os contratantes do time.


Ela era uma presença quase mística. Essa goleira destemida e "de boca suja", xingando e gritando com seus zagueiros, além de mergulhar aos pés dos atacantes. Aliás, misticismo não faltava. Ela colocava uma boneca com roupas de futebol dentro de gol para afastar as bolas - uma ideia que ela pegou emprestada de Ricardo Zamora, outra lenda do gol espanhol -. A qualidade de Irene era tamanha que certa vez um jornal afirmou "não há ninguém que possa marcar contra ela".


Irene era bem conhecida e amplamente admirada dentro da comunidade esportiva local e nacional, mesmo que muitas vezes os elogios fossem inevitavelmente em termos mais grosseiros como "robusto" e "moleca". (No espanhol, originalmente, o termo "moleca" tem conotações negativas e bem mais fortes do que o entendimento atual).


Infelizmente, sua popularidade não foi capaz de protegê-la de um final tragicamente precoce. No outono de 1927, Irene contraiu tuberculose, doença que também tiraria a vida de três de seus irmãos, e foi forçada a parar de jogar. Ela penhorou seus uniformes e outros pertences para cobrir o custo de seu tratamento, remédios e despesas diárias.


Quando outros jogadores souberam da situação, foi organizada uma partida de caridade. O dinheiro arrecadado permitiu que ela comprasse novas roupas, um novo colchão para sua cama e também pagar o aluguel atrasado. Mas sua condição não melhorou. Uma carta foi publicada no jornal La voz de Galicia intitulada "Precisamos Ajudar Irene" e foram feitas coletas de dinheiro nas partidas que aconteceram em La Coruña.


Graças a tudo isso, ela conseguiu se recuperar. Contudo, repentinamente Irene faleceu no dia 9 de abril de 1928 por conta de uma sequela deixada pela doença. Mal havia completado 19 anos de idade.


Inexplicavelmente, sua história havia sido "esquecida" na história do futebol espanhol até o jornalista Óscar Losada revivê-la com seu documentário "Irene, uma goleira", em 2008. Para isso, ele conversou com o lendário goleiro do Deportivo La Coruña, Rodrigo Vizoso, contemporâneo de Irene, que já faleceu. Ele lembrava-se bem dela. Vizoso revelou que muitas vezes assistia aos jogos dela e torcia atrás do gol.


Na contramão do que aconteceu com sua história em âmbito nacional, dentro de sua cidade natal, Irene teve seu legado estendido através das décadas após sua morte e imortalizada por uma cantiga popular cantada pelas meninas de La Coruña.


"Mamãe,

Uma jogadora eu quero ser,

Para jogar como Irene,

Que joga muito bem.


Mamãe,

Quando mais velha eu for,

Muito dinheiro vou ganhar,

Jogando futebol."


Naquela época era uma impossibilidade. Mesmo agora, com transmissões regulares, acordos de patrocínio e interesse suficiente dos espectadores para atrair multidões de 60 mil pessoas, poucas jogadoras ganham muito dinheiro.


Mas pelo menos as meninas agora podem aspirar ao futebol como uma carreira viável. E o fato de que realmente podem deve-se em grande parte a pessoas como Irene González, que lutaram para afirmar sua presença em um esporte que raramente era aberto a elas.


Obrigado, Irene González.


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