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  • Rogger da Costa

HISTÓRIAS DA COPA FEMININA: GOLEIRA DO BRASIL PRECISOU COMPRAR LUVAS NA CHINA ANTES DA ESTREIA

Meg, que saiu da aposentadoria das quadras de handebol em 1990 para jogar o primeiro Mundial da Fifa de futebol feminino e teve a ingrata missão de impedir o bombardeio americano de Michelle Akers e Mia Hamm no último jogo da primeira fase.


Aos 68 anos, Margarete Pioresan, a Meg, guarda viva na memória os menos de 10 dias passados na China, que sediou o primeiro Mundial em novembro de 1991, com a participação de 12 seleções. O contato inicial com o país super populoso, que já contabilizava mais de 1 bilhão de pessoas à época, ainda impacta a ex-goleira mais de 30 anos depois. A seleção ficou brada em Guanghzou, onde a equipe jogou duas das três partidas do Grupo B.


— Só tinha prédio subindo, obras por todo canto, muitas bicicletas nas ruas, as pessoas trabalhando todos os dias, até domingo. Nos deslocamentos para os treinos, víamos muitas pessoas trabalhando nas lavouras. Era muita gente — recorda Meg, que ficou impressionada com as instalações do hotel. — Devia ser um hotel de 10 estrelas (risos). Meu quarto era um mini apartamento, tinha mais de 60 metros quadrados. Eu treinava no meu quarto, corria, fazia abdominal.


Era realmente necessária qualquer preparação extra. Aos 35 anos, Meg não jogava futebol desde 1988, quando decidiu se dedicar à seleção brasileira de handebol, que disputaria o Mundial da categoria em 1989. Inclusive, a goleira pediu dispensa para o torneio experimental de seleções femininas de futebol realizado pela Fifa em1988. Em 1990, estava aposentada das quadras e campos e atuando apenas como professora de educação física, quando foi convencida por Eurico Lira, criador do Radar, base do time brasileiro. O motivo era simples: além da primeira Copa do Mundo, a inclusão da categoria nos Jogos Olímpicos estava prevista.


— Meu sonho era jogar uma Olimpíada. Não consegui no handebol, pois só havia uma vaga para as Américas. Era a chance de ir — afirma Meg, que estava lá na estreia da modalidade em Atlanta-96.


A questão física não pesava apenas para Meg. Naquele período, o futebol feminino no Brasil estava parado, depois do fim da proibição em 1979. O Radar, que ao longo dos anos 1980 fez excursões pelo mundo, não estava jogando. As jogadoras mantinham algum contato com a bola em jogos de várzea. As goleiras sequer tinham um preparador exclusivo para elas. Após a fácil conquista da vaga no Sul-Americano, disputado em Maringá, a CBF mudou toda a comissão técnica.


Com a maioria das jogadoras fora de forma e acima do peso — Meg estava com 3kg a mais —, a seleção, agora comandada por Fernando Pires, fez uma rápida preparação na Granja Comary e na Escola de Educação Física do Exército, na Urca. Lá, pela primeira vez, a goleira teve um preparador exclusivo para a posição.


— Fazíamos jogos com times juvenis do Rio, sub-17, sub-15. Num desses jogos, encostou o ex-goleiro Simão. Ele se ofereceu para treinar as goleiras e foi para o Mundial. Até então nossos treinos eram capengas — afirma.


Não só os treinamentos mas toda a estrutura dada às jogadoras era capenga. Os uniformes eram os usados pelo time masculino. A seleção não teve um período de adaptação na China. Chegou às vésperas da competição. Lá, Meg percebeu que suas luvas dadas pela CBF não eram adequadas.


— Saí com um diretor da CBF pela cidade para comprar luvas na véspera da estreia contra o Japão — conta.


Num dos grupos mais difíceis da competição, que teve a campeã (EUA) e a terceira colocada (Suécia) do torneio, o Brasil não criou grandes expectativas. Sabia que estava muito atrás das americanas, as melhores do mundo, e das europeias, que já tinham campeonatos mais estruturados, como a Euro feminina. Aqui não havia nada. Só a qualidade técnica.


Na memória de Meg, a palavra medo não fez parte daquela experiência. A goleira já havia corrido o mundo com a seleção de handebol e sabia da sua responsabilidade. Contra o Japão, apesar da correria das asiáticas, ela não teve tanto trabalho. Viu de longe a confusão do lance que originou o gol da zagueira Elane, o da vitória do Brasil e o único da equipe no Mundial.


A insegurança não bateu nem mesmo diante do poderio ofensivo das americanas, no segundo jogo, nem das suecas, na terceira partida. Meg encarou Mia Hamm e a artilheira da competição Michelle Akers (com 10 gols) do jeito que pôde. Num período de cinco minutos, os Estados Unidos marcaram três dos cinco gols. Não fosse Meg, teria sido bem mais.


Diante da Suécia, o Brasil não conseguiu superar a organização tática da equipe de Pia Sundhage, que marcou um dos gols (de pênalti) na vitória por 2 a 0 que marcou a despedida do Brasil da competição.


— Foi um trator e seguramos a onda. Quase não conseguíamos passar do meio-campo. Estávamos atrás na preparação física, no esquema tático. Estávamos aquém delas. Só a condição técnica não vai resolver, resolve uma vez, no máximo. É preciso uma equipe bem preparada— diz Meg, acrescentado. —Fomos heroínas. Foi uma experiência incrível. Não voltamos arrasadas, mas com a sensação de missão cumprida.

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