• Rogger da Costa

GYULA GROSICS, A HISTÓRIA DO PRIMEIRO "GOLEIRO LÍBERO / SWEEPER KEEPER"

Conhecido principalmente por ser o último dos 11 "Húngaros dourados", o goleiro sempre se destacou como um feroz adversário do regime socialista durante a Guerra Fria, fato que não passou sem lhe causar alguns infortúnios. - Um rebelde.


Voltemos um pouco no tempo. 25 de março de 2008. Faltam menos de 2 meses para a Euro, que foi realizada na Áustria e Suíça, as seleção estão se preparando com amistosos. Na França, os amantes de futebol lamentam o falecimento de Thierry Gilardi, de parada cardíaca. Nesse mesmo dia, na Hungria, uma cena curiosa chamou a atenção de todos os espectadores. O Ferencváros aproveitou a pausa para jogos das seleções e marcou um amistoso contra o Sheffield nited, no estádio Flórián Albert.


Ao ler a súmula, um detalhe chamou a atenção de todos: o titular não seria János Csank (hoje aposentado) e sim.... GYULA GROSICS! O último atleta vivo da mundialmente famosa seleção húngara de 1950? Sim, ele mesmo. No pontapé inicial, o goleiro, que tinha 82 anos na época, assumiu seu lugar em Budapeste. Alguns segundos, e centenas de fotos, depois ele foi substituído e foi ovacionado pelo público.


O motivo de tudo isso? Realizar o maior desejo de Grosics, vestir a camisa de seu time do coração. Mesmo 46 anos após terminar sua carreira.


Voltemos no tempo mais ainda: A ascensão do relâmpago "Pantera Negra"


A homenagem, no mínimo original, do Ferencváros não denota de forma alguma a vida de Gyula Grosics, cuja jornada certamente não pode ser comparada a um longo rio tranquilo.


Tudo começou na cidade de Dorog (encontra-se a 38 km a noroeste do centro de Budapeste a principal atividade até pouco tempo era a mineração), onde Gyula nasceu, em 4 de fevereiro de 1926. Sua família tinha uma renda modesta, vivia em uma casa sem água corrente e seu pai, ferreiro de profissão, queria que ele fosse padre. A Segunda Guerra Mundial, entretanto, mudou o rumo da vida do jovem.


No auge de seus 18 anos e por ser membro de uma organização Levente (Associações de Levente ou simplesmente "levente" eram organizações paramilitares de jovens na Hungria no período entre guerras e durante a Segunda Guerra Mundial. Foram criadas em 1921.), teve que ir trabalhar para a Áustria em 1943. Em seu retorno, o clube local, Dorogi Bányász (atualmente Dorogi FC), o convidou para assumir a vaga de goleiro. O motivo? O então titular, infelizmente, não retornou com vida da frente de batalha. E ele rapidamente se tornou um destaque da equipe.


É exatamente aqui onde o simples Gyula começa a se tornar o lendário Gyula Grosics.


Após uma curta passagem pelo MATEOSZ, Grosics ingressou no Honvéd, em 1950. Isso foi tudo, menos uma coincidência, pois a recém instituída potência queria reunir os melhores jogadores do time do Exército. Enquanto Ferenc Puskás e Sándor Kocsis colocavam em pânico as defesas, Grosics tirava o sono dos atacantes adversários.


Devido ao seu uniforme completamente preto, foi apelidado de Pantera Negra (não confundir com Lev Yashin, apelidado de Aranha Negra, na Europa; e, em sua época, de Pantera Negra, na América do Sul). Apesar da fama atual, na época de Grosics, o uniforme todo preto era bastante incomum entre os goleiros.


Rápido em suas saídas do gol, ele, diferentemente dos outros goleiros de seu tempo, não ficava "preso" dentro de sua área e não mostrava nenhuma hesitação em se aventurar longe dela para bloquear os ataques adversários ou para, de certo modo, iniciar algum ataque. O que, na época, foi uma completa revolução.


Gyula Grosics colecionou sucesso em clubes, mas foi com sua seleção que ele realmente chegou ao topo. Liderados por Gusztáv Sebes, os "Golden Eleven" esmagaram tudo em seu caminho entre 1950 e 1954 (quatro anos de invencibilidade, 33 vitórias consecutivas).


Os magiares conquistaram um título olímpico em Helsinque (1952), humilharam os ingleses em Wembley (1953 vitória por 6-3) e desembarcaram na Copa do Mundo de 1954 com o status de muito favoritos ao título. A Hungria avançou para a final mas, para surpresa de todos, perdeu para a Alemanha Ocidental (3-2). Este "Milagre de Berna" marca o início das dificuldades para o goleiro de Budapeste, que foi, de certo modo, irreconhecível ​​durante este jogo.


O "Milagre de Berna" e o início do fim


Na volta para casa, os infelizes finalistas da Copa do Mundo ficaram confinados em um prédio, sem a possibilidade de ver seus entes queridos. Oficialmente, o regime busca protegê-los, um vasto movimento popular que eclodiu um pouco antes. Mas a intenção de Mátyás Rákosi, secretário-geral do Partido dos Trabalhadores Húngaros, seria mais ambígua.


“Ele nos deu um pequeno discurso, assim: foi uma derrota, sempre pode acontecer. Na próxima Copa do Mundo faremos melhor. Até então, ninguém deve temer retaliação. E foi exatamente aí que a maioria dos jogadores do time começou a ficar com medo. Porque essa era uma ameaça indisfarçável.", lembrou Grosics em 2010, em entrevista ao Süddeutsche Zeitung.


Esta ameaça preocupava particularmente o Pantera Negra, na mira após sua atuação menos brilhante do que o normal na final.


Acusado de espionagem em dezembro de 1954, o goleiro húngaro foi colocado em prisão domiciliar. O governo não lhe dá trégua, e seu pai perde o emprego. No entanto, Grosics foi libertado 15 meses depois por falta de provas. O que encorajaria este feroz oponente do regime socialista a ir para o exílio quando estourou a insurreição de novembro de 1956?


Enquanto os tanques soviéticos tomam as ruas de Budapeste, o nativo de Dorog está no exterior com o Honvéd, e a maioria de seus companheiros de equipe se recusa efetivamente a voltar para casa. Puskás vai para o Real Madrid, Kocsis e Czibor assinam com o FC Barcelona. O goleiro finalmente retorna à Hungria, junto com Bozsik, Budai e Lóránt.


1956 - O exílio Impossível


Verdade seja dita, Grosics - cuja casa serviu de esconderijo para armas rebeldes durante a insurgência - não pôde zarpar devido ao seu passado conturbado. As autoridades guardariam documentos provando que ele foi, de 1944 a 1945, um voluntário na divisão SS Hunyadi Páncélgránátos Hadosztály, que lutou contra os soviéticos.


(A 25ª Divisão Waffen Grenadier da SS "Hunyadi" (1ª Húngara) foi uma divisão de infantaria de curta duração da Waffen-SS, um braço armado do Partido Nazista Alemão que serviu ao lado, mas nunca fez parte formalmente da Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial)


No entanto, de acordo com os termos usados ​​no Tratado de Paris, os voluntários dessa divisão são considerados "criminosos de guerra".


É impossível, com este rótulo, ter esperança de viver no Ocidente. Retornado em 1957, Grosics teve que encontrar uma nova base. Ele desejava fervorosamente se juntar ao Ferencváros, um clube popular e de protesto que ele tanto prezava.


Mas os líderes políticos se opuseram fortemente e, em vez disso, enviam-no para o Tatabánya FC. Foi com esse modesto time que o ex-goleiro do poderoso Honvéd continuou jogando até 1962, quando decidiu aposentar-se.


Assim, décadas depois, Grosics finalmente conseguiu se libertar do "exílio". O ex-goleiro teve uma modesta carreira de treinador, treinou treinou além do Bányasz, a seleção do Kuwait, o KSI e o Salgótarjáni BTC.


Concorreu às eleições legislativas em 1990 e tornou-se um forte apoiante do Fidesz de Viktor Orbán. (atual primeiro-ministro do seu país, tendo exercido o cargo também entre 1998 e 2002.).


Há rumores de que em 2009 ele se recusou a receber a mais alta homenagem da cidade de Budapeste sob o pretexto de que a condecoração também havia sido concedida a Joseph Stalin vários anos antes. Mesmo que às vezes o tenham prejudicado, Gyula Grosics permaneceu fiel às suas convicções. Até seu último suspiro.


Em 12 de julho de 2014, foi internado com complicações cardíacas e pulmonares, vindo a falecer no dia seguinte, aos 88 anos.


TÍTULOS POR CLUBES: Campeonato Húngaro (1950, 1952,1954 e 1955) todos os títulos pelo Honved.


TÍTULOS PELA SELEÇÃO: Campeão da Copa dos Balcãs (1947), Campeão Olímpico (1952), Campeão da Europa Central (1953) e Vice Campeão do Mundo (1954)


TÍTULOS INDIVIDUAIS: Jogador do Ano na Hungria (1949 e 1950), Melhor goleiro da Copa do Mundo de 1954.



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