• Rogger da Costa

GUILHERME ALMEIDA E O CHOQUE CULTURAL NA ÁSIA

Por Gabriel Farias


Cidade conhecida por ser celeiro de grandes jogadores, São Gonçalo também espalha pelo mundo do futebol profissionais das mais diversas funções, como técnicos, preparadores físicos e treinadores de goleiros. Nessa última, destaca-se Guilherme Almeida, de 37 anos, nascido no Porto Novo e atualmente trabalhando no Sepak Kuala Lumpur, da Malásia.


Antes de desbravar a Ásia, o gonçalense treinou goleiros de América Mineiro, America do Rio, Artsul e Vasco, acumulando grande experiência durante cinco anos na base cruzmaltina. Em 2013 surgiu a primeira chance no exterior, no futebol do Irã. Antes de chegar em solo malaio, também atuou no Emirados Árabes.


– É um choque cultural que só quem vivencia sente. Você sai de um país aberto, livre, como o Brasil, e vê situações como as pessoas cobertas, as mulheres todas de preto. Mas o Irã é um país maravilhoso, não tem nada de guerra, de violência. São pessoas maravilhosas e é um país que um dia eu gostaria de retornar – explica Guilherme, que apontou outras diferenças que sentiu ao chegar em terras iranianas.


– Ao sair na rua, tem que usar calça comprida, não pode usar camiseta, as mulheres têm que usar burca… é um país bem restrito. Na internet não pode fazer download, até por conta do governo, que desliga a internet em alguns momentos para evitar que as pessoas protestem nas redes sociais. São coisas interessantes que vivenciei.


Perrengue para entender o árabe


Se engana quem pensa que, apenas por ser brasileiro, Guilherme Almeida teve moleza em solo asiático. Para atuar como preparador de goleiros do outro lado do mundo, foi preciso seguir as exigências locais e se capacitar em cursos que, muita das vezes, eram ensinados na língua árabe.


– Somos muito respeitados sim, mas precisamos nos qualificar. Sou professor de educação física formado, mas aqui fora não conta nada. Sou obrigado a fazer os cursos da AFC (Associação de Futebol da Ásia). Os cursos são quase todos na língua deles ou em inglês. É bem difícil. Uma das minhas licenças tirei no Emirados Árabes e o professor dava aula em árabe. Aí um amigo ia traduzindo no inglês para mim.


Orações em meio a treino e dificuldades no Ramadã


No Emirados Árabes aconteceu uma das situações mais inusitadas da carreira de Guilherme Almeida. O islamismo, religião oficial do país, é seguida à risca. Cabe ao futebol se adaptar.


– A religião é em primeiro lugar sempre. É Alá no céu e a gente na terra. Na primeira vez eu fiquei assustado porque não sabia como funcionava. Eu estava dando treino para os goleiros e um deles disse que tinha que parar para rezar. Eles param para rezar, lavam as mãos, os pés, o rosto, colocam como se fosse uma saia, abrem um tapete na beira do campo e rezam todos juntos. Depois de 10, 15 minutos, eles retornam. Aí passamos a colocar o treino de modo que a reza fosse no início.


O Ramadã é outro desafio. O período sagrado de um mês no calendário islâmico traz obrigações severas, como passar praticamente um dia inteiro em jejum. Esse é mais um momento onde o futebol precisa se submeter à religião.


– No Ramadã só podemos trabalhar no período da noite. Inicia às 9h da noite o treino. É bem complicado porque os jogadores ficam o dia todo em jejum e só comem a partir das 7h da noite. Eles comem bem pouquinho para não treinarem de barriga cheia. Aí quando acaba o treino, eles passam a madrugada inteira comendo. No início é difícil, mas depois eles se adaptam.


Sonho por Seleção Nacional


No que depender de Guilherme Almeida, o retorno ao Brasil não acontecerá tão cedo. A ideia é seguir no exterior. O principal sonho para o futuro é trabalhar numa Seleção Nacional, conforme explica o preparador de goleiros.


– Primeiro desejo seguir fora do Brasil por bastante tempo, até porque aqui somos valorizados, respeitados. Meu objetivo um dia é trabalhar em alguma seleção, de qualquer país que for, na Ásia, América do Sul, Europa… Estou focado aqui no meu clube agora e, depois, no futuro, o que Deus mandar temos que aceitar.


Com a pandemia do novo coronavírus bem controlada na Malásia, o esporte no país vai retornando à normalidade. Na próxima segunda-feira (29), Guilherme volta às atividades no Sepak Kuala Lumpur. Hora de reiniciar o trabalho e seguir levando o nome de São Gonçalo para os gramados asiáticos.


– Nossa cidade é um celeiro de craques. Temos bastante jogadores, ex-jogadores, profissionais do futebol, e procuro dar sequência, levando o nome de São Gonçalo e do nosso país. Procuro sempre deixar o legado, até porque não se sabe se amanhã virão outros brasileiros, então procuro sempre deixar as portas abertas.

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