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Dentista viaja 200 km por dia por sonho de ser Goleiro

O sonho da maioria dos meninos quando criança é ser jogador de futebol. Por falta de talento ou dificuldades diversas, apenas uma pequena parcela consegue torná-lo realidade. Para quem não realiza, o tempo passa, a vida segue, uma nova carreira é escolhida e o futebol como profissão é deixado de lado. Mas com Igor Leonardo foi diferente: dentista desde 2015, ele vai começar a atuar profissionalmente aos 24 anos.

Sem oportunidades de jogar futebol na infância e na adolescência, o arqueiro de 1,85 m, que é natural de Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, deixou o sonho guardado por um tempo e foi estudar odontologia em João Pessoa, capital da Paraíba. Após concluir o ensino superior e abrir o próprio consultório, surgiu a primeira chance como goleiro: disputar a Série D do Campeonato Brasileiro pelo Flamengo de Arcoverde. E, como disseram Lô Borges, Milton Nascimento e Márcio Borges na canção Clube da Esquina II, “os sonhos não envelhecem”.

“Quando a gente tem um sonho, se não correr atrás fica com a cabeça pesada. Apareceu a oportunidade e não pensei duas vezes. Minha família ficou chateada com a decisão, mas estou em busca do que sonho desde pequeno”, comenta o dentista-goleiro.

Igor se divide entre a rotina cansativa de treinos e as consultas odontológicas. Todos os dias atende pela manhã e viaja às 12h com destino ao Centro de Treinamento do Ninho do Gavião, em Caruaru – local onde o Flamengo de Arcoverde treina. Após o treino, volta à Garanhuns para realizar novos atendimentos. Ele comenta que o salário como goleiro não dá pra pagar nem a gasolina dos 200 km percorridos por dia.

– Recebo uma ajuda de custo. O combustível não consigo tirar com o que eu recebo. Mas foi uma opção minha. Poderia estar morando em Caruaru, mas eu ia ter que abandonar o consultório. Minha profissão é o meu alicerce para seguir em busca do sonho. É a através dela que consigo ir e voltar e pagar minhas dívidas. O clube de pelada onde joguei, o Nacional, e alguns empresários da cidade também estão me ajudando.

Pai, mãe e noiva são contra as “loucuras” cometidas por Igor, mas a força de vontade dele é maior.

– Se o salário que eu recebo no Flamengo desse para me sustentar e pagar minhas contas, não estaria indo e voltando. Estaria lá com toda certeza do mundo. Meus pais e a minha noiva não ficaram satisfeitos, mas não se envolvem. Não abandonei a odontologia, mas quero viver só do futebol.

O dentista-goleiro comenta que até tentou começar antes no futebol. Porém, por falta de oportunidades, foi estudar na Paraíba.

– Jogo bola desde pequeno, mas não tinha nenhum time na região. Quando eu terminei o terceiro ano do ensino médio eu tentei alguns clubes, mas não consegui. Então, fui estudar em João Pessoa. Lá, treinei alguns dias no Santos-PB. Eu não estava recebendo nem o dinheiro da passagem, aí ficou complicado.

Um dos responsáveis pela realização do sonho é o treinador chileno Javier Diaz. Foi dele o convite para fazer parte do elenco rubro-negro.

– Ano passado, o Sete de Setembro voltou a ativa na Série A2 do Pernambucano e eu recebi o convite para fazer parte do elenco. Mas, por ser acima da idade, não participei de nenhum jogo. Quem estava lá era o técnico Javier Diaz, que hoje treina o Flamengo. Quando ele chegou e viu que só tinha um goleiro no time, me ligou e fez o convite. Aceitei e estou me virando como posso.

Questionado sobre o início tardio no futebol, ele disse que não existe idade certa para começar a jogar.

“Não existe uma idade para iniciar no futebol. Lógico que por não ter trabalho de base dificulta um pouco a adaptação. Ano passado eu estava sem pretensão de jogo e em alguns casos não persisti. Hoje eu amadureci e tenho uma profissão. Se der algo errado no futebol, tenho minha profissão, meu trabalho, minha formação e isso me deixou seguro de ir buscar o sonho.”

Para seguir firme na rotina, Igor se inspira em Sócrates, que no início da carreira ficou entre os estudos na faculdade de medicina e os treinos no Botafogo-SP.

“Me inspiro muito em Sócrates, é o meu exemplo maior. Vejo muitos goleiros aparecendo com 25, 26 anos. Só é tarde se acharmos que é. Eu acredito que pra mim é uma oportunidade única”, finaliza.

Igor terminou odontologia em 2015 — Foto: Igor Leonardo / Arquivo Pessoal


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