• Rogger da Costa

Preparador de goleiros luta contra balança e preconceito por sonho de criança

Atualizado: Mai 18

A cena pode chamar a atenção de muitos torcedores, mas se engana quem pensa que a obesidade é empecilho para Felippe Fernandes. Ao seguir o sonho de criança, o preparador de goleiros do Rio São Paulo, clube da Terceira Divisão do Campeonato Carioca, luta contra o preconceito para tentar mostrar que pode vencer na carreira mesmo sem seguir os padrões vigentes do futebol.

Aos 25 anos, Felippe não se sente à vontade para revelar o seu peso atual, mas admite que é um problema e que trava uma batalha diária para ser preparador de goleiros. Segundo ele — que trabalhou nas divisões de base de Madureira, Audax-RJ e Portuguesa, além de clubes de divisões inferiores —, a maior dificuldade é o preconceito de muitos com a sua aparência. O pior momento foi a exigência de emagrecer para seguir com o emprego.

“Incomoda falar (sobre quanto pesa) porque é uma batalha diária. Desde criança sou acima do peso, nenhuma das muitas dietas deu certo, fui a vários nutricionistas… Já sofri muito preconceito por estar fora dos padrões. Inclusive, fui mandado embora de um clube por causa disso. O diretor me pediu para emagrecer, ou seria demitido. Também sentia ter reprovação de muitas pessoas. Foi um baque para mim”, recorda Felippe.

E acrescenta: “As pessoas precisam me conhecer primeiro para depois avaliar o meu trabalho. Sempre desconfiam, acham que só porque estou acima do peso não vou conseguir fazer o trabalho. Admito que tenho parcela de culpa por precisar ser referência como preparador, mas também sei que consigo desenvolver um bom trabalho. Claro que fico mais cansado, mas você se acostuma com a rotina e tenta compensar”.

Morador de Campinho, próximo à sede do Rio São Paulo, Felippe só tem o clube como emprego. Apesar da situação financeira apertada, o sacrifício para seguir o sonho de quando tinha 10 anos vale a pena. Ele queria ser goleiro e tentou até os 16 anos, mas o sobrepeso e a baixa estatura (tem 1,69m) não ajudaram. Restou investir como preparador.

O próprio Rio São Paulo abriu as portas quando tinha 17 anos e Felippe passou a buscar conhecimento da área. A faculdade de Educação Física teve que ser trancada por questões financeiras, mas ele fez alguns cursos de aperfeiçoamento para tentar compensar: dois em São Paulo e três no Rio, conseguindo certificados da Associação Brasileira de Treinadores de Goleiros (ABTG), da qual é associado.

“Em média são de 100 a 150 chutes por dia nos meus treinos. Busco trabalhar situações de jogo, com muita velocidade de reação, chutes, cruzamentos. O peso não atrapalha”, garante.

De volta ao Rio São Paulo, campeão do segundo turno e entre os quatro que brigam para subir para a Segunda Divisão do Carioca, Felippe colhe resultados. A equipe é a menos vazada da competição (sofreu 14 gols em 18 jogos) e, na campanha, os goleiros Philippe Moura e Ewerson David não sofreram gol em 11 partidas.

“Para mim, é uma vitória pessoal, o reconhecimento do trabalho que vem sendo bem feito. Se estou hoje aqui é porque não desisti. O suor faz mágica. Tenho muito a agradecer ao clube que apostou em mim”, afirma.

Mais do que a questão estética, Felippe mostra preocupação com a saúde e analisa alternativas para mudar. Uma das possibilidades é fazer a cirurgia de redução de estômago. Tudo para seguir com o sonho de ser preparador de goleiros: “Ainda espero completar a faculdade. A única coisa que me deixa feliz é o futebol, o amor à profissão. Meu objetivo é trabalhar em um grande clube. Só depende de mim”, completa.

0 visualização

Receba nossas atualizações

  • Branca Ícone Instagram
  • Ícone do Facebook Branco

© 2020 por Voa Goleiro. Tudo sobre Goleiros.