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O dia a dia da preparação de goleiros no TSG 1899 Hoffenhaim

Dois anos se passaram, e retomando as entrevistas para o Voa Goleiro comecei a pesquisar sobre preparadores de goleiros que estão no mais alto nível e que também gostam de compartilhar seus conhecimentos. Foi quando encontrei Michael Rechner, um preparador de goleiros jovem, com 37 anos, e que se encaixava perfeitamente naquilo que eu buscava. Não deu outra. Fiz uma entrevista por e-mail com ele (confira mais clicando AQUI). Foi muito produtiva.

Tomei coragem e perguntei a ele se era possível acompanhar uma semana de treinamentos. A resposta imediata foi “não”. Sem problemas, já estava preparado para esse tipo de resposta, principalmente por se tratar de um clube extremamente profissional, do mais alto nível, e que já era de meu conhecimento que lá os treinamentos são realmente fechados para público, salvo raras exceções. Vida que segue…

Mas 4 dias após a entrevista surge uma notícia inesperada. Eis que recebo um convite para acompanhar os treinamentos do Michael e do Hoffenhaim. Jamais imaginei em acompanhar um time famoso pela revolução no futebol alemão dias antes do jogo mais importante de sua história, diante do gigante inglês Liverpool.

Placa indicando que chegava ao clube


O combinado, até então, era acompanhar duas sessões na segunda, uma na terça, uma na quarta e uma na quinta feira, já que na programação do time depois do treino de quinta feira eles viajariam para o jogo da Copa da Alemanha, diante do Erfurt. Coloquei a passagem de volta na sexta feira, com tempo para descansar ainda um dia, porém a programação mudou e também pude acompanhar o treino que antecedeu o jogo da copa. Inacreditável. Com a parada que aconteceria na Thai Premier League (Liga nacional tailandesa) aproveitei para embarcar para a Alemanha, rumo a uma realização de um sonho: conhecer a escola alemã de perto.

No meu itinerário estava previsto saída do aeroporto de Bangkok ás 23hr de segunda feira, 07/08, chegando em Frankfurt na terça-feira às 5hr, do dia 08/08, mais uma hora e meia de trem até Zuzenhausem, um vilarejo de apenas 2.146 pessoas, com horário previsto de chegada às 7h30. O clube fica a 500 metros do hotel no vilarejo. Por conta de 10 minutos que perdi pedindo informações, perdi o primeiro trem que me levaria ao hotel. Esperei outros 30 minutos para seguir até meu destino final.

Brauereigasthof foi o hotel onde fiquei em Zuzenhausen.


Chegando no hotel onde o checkin abria somente as 14 horas sem pensar muito e atrasado para acompanhar o treino só deixei as malas e segui para o campo. No caminho para o centro de treinamento eram visíveis a paz e a qualidade de vida do local, em volta somente verde, plantações de trigo e milho. Já no clube, junto com a torcida (nesse dia o treino foi aberto ao público) pude ver o fenômeno que o mundo todo vem comentando a respeito, Julian Nagelsmann, de apenas 30 anos, considerando um expert quando o assunto é liderar e montar time. Ele conseguiu a façanha de chegar a uma pré Champions League em sua primeira oportunidade como treinador na Bundesliga, pelo TSG 1899 Hoffenhaim.

Mas não é esse o motivo de estar aqui. O motivo estava lá no cantinho do campo, como todos nós (treinadores de goleiros e goleiros) ficamos trabalhando, com paixão e corrigindo os detalhes. Legal de se ver o respeito que se tem pelos goleiros nesse país. Não à toa Oliver Baumann é um dos mais regulares goleiros da Alemanha na atualidade.


O Treino chega ao fim. Esperava me recolher para o treino da tarde quando, a convite do Michael, fui chamado para almoçar e conhecer um pouco das instalações do clube. Como negar isso? No momento estava mais eufórico que um jogo importante a começar. Ficamos conversando sobre assuntos de treinamentos de goleiros, experiências internacionais, como a cultura está ligada diretamente ao nosso trabalho e como trabalhamos respeitando cada atleta.

No treino de terça-feira à tarde os goleiros entram em campo 45 minutos antes dos demais, fazendo a parte específica, trabalho em manutenção do gesto técnico. Apenas Baumman e Kobel em campo. Alexander Stolz ficou no departamento médico cuidando de uma lesão na canela.

Na quarta-feira, treino pela manhã, dessa vez pude acompanhar bem de perto todo trabalho realizado com os goleiros. Foi mais um trabalho de fortalecimento do CORE no aquecimento, passando pela parte de reação, controle e passe de bola, seguindo de manutenção do gesto técnico, queda rasteira, voltando para exercício dinâmico com reação e posicionamento em foco movendo-se para exercícios de percepção. Percebe que notando o tópico do treino se trabalha tais funções desde o básico ao mais complexo, exemplo: o tópico do dia exigia muitas quedas rasteiras então Michael começou trabalhando desde os princípios básicos da queda lateral, para enfim dar ênfase na fase mais complexa, colocando percepção reação no treino.


Terminado a parte específica, os goleiros juntaram-se ao time e trabalharam ataque contra defesa, com princípios de jogo do time. À tarde tive o privilégio de almoçar com o preparador de goleiros do Sub-23, Stefan, onde em conversa rica sobre conteúdo comentou como a escola alemã vem trazendo para o jogo deles princípios de gerenciamento de espaço da escola italiana. Ele me mostrou ainda toda a estrutura da categoria, como sala de jogos, sala de reuniões, academia, enfim, uma estrutura digna de ser considerada top mundial.

Com preparador de goleiros Stefan do Sub 23 do TSG Hoffenhaim.


O tempo com Estefan mostrou de forma mais a clara todo modo de treinamento que o clube segue desde o sub-10. Foi criado pelo próprio Michael uma filosofia de treinamento dos goleiros, desde os exercícios básicos até o mais complexo, explicados em um livro de quase 200 paginas. A ideia de padronização do treinamento é no futuro próximo ter goleiros mais preparados para o jogo. Todo preparador, segundo sua teoria, pode ter sua metodologia, porém a mesma deve seguir a filosofia criada, visando a chegada no profissional.

Fui convidado por Michael para jantar com sua família na quinta-feira. Mais uma vez o assunto não poderia ser outro: goleiros e sua preparação. Dessa vez foi eu quem teve de responder perguntas sobre o nosso trabalho aqui no Bangkok United. A abordagem ficou por conta da cultura que está ligada diretamente ao nosso trabalho, como saber respeitar os limites dos atletas sem deixar cair a qualidade dos treinamentos. Tudo isso acompanhado de um bom vinho e uma boa pizza.

NOVIDADE

Aproveito a oportunidade para falar em primeira mão as vocês leitores e apreciadores do Voa Goleiro sobre uma novidade pra lá de interessante. Durante nosso bate-papo, Michael fez questão de reforçar que o trabalho de treinamento de goleiros também está associado à tecnologia. Ele me apresentou um software desenvolvido para análise de treinamentos e jogos, além de criação de treinamentos com dicas e muito mais. Comentei despretensiosamente com ele sobre a necessidade de se ter uma ferramenta dessa no Brasil, pois seria muito bom para o nosso crescimento na área. Ele deixou claro que há uma possibilidade de traduzir o software para o português. Quem sabe, num futuro próximo, o Voa Goleiro não traga tal equipamento para nosso país? O que me dizem?      Software

Na quinta feira pela manhã Michael gentilmente me apresentou as instalações físicas do clube, como vestiários, salas de fisioterapia, academia e refeitório. Dentro do complexo, os atletas ainda têm à sua disposição um hotel com suite dividido por 2 atletas, sendo de preferência do atleta querer ficar  concentrado ou não, valendo para treinos ou jogos. Além disso, há campos aquecidos para o inverno. Ou seja, o local é munido do que há de mais alto nível e moderno no mundo.

Já na parte da tarde acompanhei o treinamento que antecedia o jogo da Copa da Alemanha, um jogo de suma importância para a equipe se manter forte na competição. O treino foi composto por um aquecimento de 25 minutos com princípios básicos de saída de gol, soco a bola e, como sempre, a parte cognitiva alinhada aos exercícios, exigindo o goleiro a tomar decisões e reagir rápido a diferentes estímulos. Contou também com o tradicional campo reduzido com o grupo além, claro, do trabalho de finalizações.

Cafezinho pra esquentar o atípico verão alemão.


Um cafezinho para esquentar a manhã fria em Zuzenhausem e mais uma pergunta ao treinador de goleiros: Como são realizados os trabalhos em conjunto com o departamento de análises? Michael responde: “Aqui realizamos análises de treino, de jogos dos próprios goleiros e também da parte ofensiva adversaria, para prepara-los de forma que não sejam surpreendidos durante os jogos”, respondeu.

E assim terminaram meus dias na Alemanha. Deixei o país satisfeito com tudo que vi. No caminho de volta a Bangkok, com tantas informações na mente, processando, confesso que durou alguns dias para assimilar toda essa experiência. O que me deixa ainda mais feliz é saber que, embora eu não esteja ainda no nível de excelência de Michel, no que diz respeito a todo o conhecimento, percebo que meu trabalho segue a mesma linha de pensamento e metodologia. Volto de lá com minha bagagem recheada de lições e experiências que serão guardadas e implantadas no momento certo, no sentido de melhorar ainda mais nosso rendimento, pois, como disse um outro treinador que admiro muito, “No futebol o segredo é fazer o básico bem feito” – Carlos Alberto Souza Lima.

Michael Rechner(Goalkeeping Development) e Valdir Bardi(VoaGoleiro).


Deixo aqui o meu muito obrigado ao preparador de goleiros Micael Rechner, pela hospitalidade, derrubando assim a impressão que tinha do povo alemão e abrindo ainda mais meus horizontes de como a cultura está ligada diretamente nos nossos treinamentos dia a dia, quem sabe com essa amizade não consigamos em breve levar um seminário ao Brasil e trocar idéias sobre nossos modos de treinamentos?! Obrigado pela paciência e pela disposição, em um momento tão grande na história do clube e na sua história, abriu as portas para de forma simples debatermos o que é a arte de treinar goleiros.

Onde vamos para nossas novas experiências?

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